quinta-feira, 9 de março de 2017

"Melodia do Mal": a assustadora face da inocência

"Melodia do Mal", de John Ajvide Lindqvist, é mais que um simples livro de terror, é uma reflexão sobre a natureza humana. Esqueça todas as suas referências porque a obra vai te surpreender. Não gosto de enquadrar livros em gêneros, terror psicológico ou thriller, por exemplo, acho que isso reduz sua profundidade. E como Lindqvist é profundo! Desprenda-se, portanto, dos estereótipos.
A história começa com um conflito. Em meio a um bosque, um músico de meia idade encontra um bebê, uma menina muito pequena, envolvida num plástico, semienterrada. Pouco tempo antes, no caminho para a mata, onde pretendia pegar cogumelos, um carro passou zunindo por ele numa estrada de nenhum movimento: teria ela sido abandonada para morrer? Na dúvida, o homem decide levar a criança para casa, onde o espera a esposa, outrora cantora. A mulher protesta, acha absurda a ideia, sustenta que o melhor seria entregar o bebê às autoridades, mas acata a decisão do marido e aceita criá-lo em segredo. Conseguem manter a criança no antigo quarto do filho adulto, problemático e distante, sem chamar a atenção de ninguém. A menina loura é estranhamente silenciosa, com seus enormes olhos azuis, mas revela um talento precoce para a música que encanta ainda mais o músico.
À medida que a menina cresce, torna-se difícil manter segredo. O filho descobre a "irmã adotiva", até então chamada de Pequenina, e se conecta com ela de um jeito singular. Passa a chamá-la de Theres. Acontecimentos estranhos vão se somando enquanto o casal se sente cada vez mais pressionado pelo impulso natural da menina. Para obrigá-la a permanecer cativa, o "pai" a aterroriza dizendo que fora da casa há adultos maus que comem crianças pequenas como ela. O único lugar que a manteria a salvo era o lar, de onde jamais poderia sair.
A "mãe" não compactua com a postura do marido, mas é apenas uma dona-de-casa, passiva e resignada. Apesar de ser cúmplice dele, ela tenta preparar a menina para a vida normal, tentando alfabetizá-la. Vez ou outra alerta para distúrbios que identifica no cotidiano sem estímulos da criança, mas o marido, que se sente dono de um anjo cantor, desconsidera suas observações e faz de tudo para guardar a menina para si.
Logo Theres já não é uma garotinha, mas uma pré-adolescente, e as coisas se tornam insustentáveis. O talento para a música é apenas uma das muitas excentricidades da garota, que conquista cada vez mais o "irmão" e se projeta para o futuro de uma forma assombrosamente catalizadora até o final surpreendente das quase quinhentas páginas.
Claro que há cenas de absoluto horror, detalhes que podem chocar o leitor pela brutalidade, mas "Melodia do Mal" é como um caleidoscópio. Sob o pano de fundo do terror, trata principalmente da passagem da criança para o mundo adulto. O que é certo, o que é errado? Quem dita as regras? Desnuda a vulnerabilidade dos jovens diante das redes sociais e como lidam com a solidão, o medo, a vergonha e a ausência dos pais, mas também fala de bullying, violência doméstica, transtornos mentais, pedofilia e, principalmente, do anseio de todo ser humano por amor e aceitação.
Para mim, um livro profundo, dramático e comovente.
No Brasil, foi lançado pelo selo Tordesilhas, que já publicou, do mesmo autor, "A Maldição de Domarö" e "Mortos entre Vivos" (que eu já li e será tema de outra resenha). Lindqvist é sueco, dramaturgo e roteirista, muito conhecido pelo livro "Deixa Ela Entrar", sobre vampirismo, que também aborda o bullying, e virou filme.

terça-feira, 7 de março de 2017

Navegar é preciso

Manter-se um homem bom tem seu preço e o preço costuma ser alto.
Um homem bom se esforça continuamente para se adequar ao que ele imagina que os outros esperam dele: um exemplo bem-sucedido de força e coragem. E no meio desse embate entre a imperfeição do ser humano e a exigência do ser social, o próprio self, o eu verdadeiro, pode se perder.
Quando resolvi ler "No Mar", do jornalista holandês Toine Heijmans, publicado pela Cosac Naify, um livro fino, de apenas 157 páginas, meu único desejo era me distrair com uma aventura em alto-mar. A sinopse me cativou: um pai, Donald, leva a filha, Maria, de sete anos para uma viagem curta a bordo de seu veleiro Ishmael, último trecho de sua viagem sabática de três meses em alto-mar. Mas, inexplicavelmente, a menina desaparece no segundo dia, quando começa o martírio do pai.
O livro tem tudo. A aventura que eu desejava, o suspense, o drama. Heijmans escreve sua primeira (e premiada) obra com o brilho da simplicidade e mantém a agilidade de jornalista. Quando vi já estava na metade. Mas "No Mar" tem outra coisa, mais preciosa: é um relato profundo e sensível do homem moderno. Há muitos livros que retratam o drama da mulher - suas escolhas, a dupla jornada, a maternidade, a opressão da cultura machista... - mas poucos se ocupam do universo masculino, com suas dores e anseios.
Donald deseja ser um bom pai, um bom marido, querido e aceito pelos colegas de trabalho, reconhecido pela chefia, mas deseja ir além e espera que o mar lhe proporcione isso. Navegar é a prova máxima de coragem e ele se agarra à tranquilidade das rotinas preestabelecidas (atualizar a previsão do tempo, olhar a carta náutica, conferir todos os itens de segurança) como um Dom Quixote desesperado diante do desconhecido. Acima de tudo, Donald não pode dormir, precisa se manter atento para permanecer vivo, zelando pela filha, e receber seu galardão ao final da epopeia. Assim, navega.
Contudo, a presença da filha desestabiliza a segurança dos pequenos rituais, foge ao controle. A imagem da esposa, Hagar, ansiosa, à espera no porto, o torna vulnerável e fraco diante dos acontecimentos. Como o mar, o feminino o oprime e exige demais. Esse mar, tão vasto e intenso, tão livre e absoluto, é também aterrorizante. E ele precisará encarar a si mesmo em sua verdadeira face.
A bordo de seu Ismael (não por acaso homenagem ao único sobrevivente no clássico Moby Dick), Donald naufraga na vida em busca de si mesmo como um herói, mas o mar lhe impõe outros rumos.
Uma leitura fascinante.

(PS.:  Muito legal a diagramação dos capítulos, como ondas, e o prefácio assinado por Cristovão Tezza, uma grata surpresa)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Quando Stephan King se perdeu

"A Dança da Morte", de Stephen King, pela Suma de Letras, me foi uma completa decepção.
Como King escreve bem, não desisti no meio do livro (e-book). Confesso que sou resistente: são 1.248 páginas na versão impressa.
Depois de uma doença mortal que começa numa unidade do governo e foge ao controle das autoridades, que tentam abafar o caso, a população é praticamente dizimada. Muitos detalhes, repetitivos, sobre quem morre e os poucos que sobrevivem.
A história, que até então seria um misto de suspense e ficção científica, descamba para a fantasia, com conteúdo apocalíptico e religioso, e se perde em intermináveis enredos. Acompanhamos os sobreviventes, que ganham o poder de ter visões reais por meio de sonhos, divididos entre o bem (personificado numa idosa) e o mal (simbolizado por um enigmático viajante). Não há terror, nem suspense, apenas um enredo que não convence.
Enfim, um livro enrolado, sem objetividade e com um final decepcionante.
Se cortasse pela metade, ainda assim, sobrariam supérfluos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Diário de um Ano Ruim

Descobri Coetzee com atraso, por uma indicação feita pela jornalista e escritora Sônia Hirsch em entrevista ao programa Provocações. Sônia é uma estudiosa sobre alimentação, tenho vários livros dela na estante, e de uma simpatia incrível. Vivo de indicações, sinais, citações, tudo que possa me guiar até um bom escritor, por isso a agradeço. E assim, caminhando sobre a obra deste senhor, cheguei a "Diário de um Ano Ruim", publicado pela Companhia das Letras. Um livro bem diferente, que mexeu com meu poder de concentração como nenhum outro.
Imagine um livro tridimensional, três narrativas que seguem ao mesmo tempo. Temos a história de um famoso escritor, idoso, que se encanta e contrata uma garota casada, Anya, que mora em seu prédio, para digitar seus artigos para um livro polêmico. O marido da moça, que vive num universo completamente diferente do mundo fechado do escritor, tenta levar vantagem nessa relação e coloca a esposa numa situação difícil, em que ela se confrontará com seus próprios limites éticos. Forma-se uma espécie de triângulo amoroso sem ser, um triângulo escaleno, na minha opinião. Personagens ligados, pensamentos revelados, verdades combatidas, e no decorrer das páginas vamos conhecendo melhor a biografia do escritor, sul-africano (como Coetzee) e radicado na Austrália, o marido australiano que cresceu num orfanato e a própria Anya, de origem filipina, compondo assim nosso próprio desenho da trama.
Cada capítulo abre com o título de um artigo e logo abaixo, em notas de rodapé, acompanhamos a evolução de reflexões e sentimentos do escritor e da digitadora, que sente a opressão e a libertação do convívio com os dois homens, questionando-se sobre sua identidade, seus desejos, suas opiniões acerca do que eles próprios defendem.
Gostei muito porque o senti o livro como um chamado sobre a mulher e, sobretudo, sua libertação. Não espere adrenalina, paixão, tragédia, fortes emoções, portanto é uma leitura tranquila, embora inquieta. Trata do ser humano enquanto sociedade e, curiosamente, como o animal que é, um animal sofisticado, racional, porém ainda movido por instintos primitivos.
Comecei a ler outro livro de Coetzee, "Elizabeth Costello", que espero seja tão interessante quanto, também publicado pela Companhia das Letras.
Vale lembrar que J. M. Coetzee recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2003.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O Imperador de todos os males

Pode-se pensar no câncer como um monstro invencível, humanizá-lo na condição de um inimigo a ser vencido e tratá-lo como o pior dos pesadelos, um sinistro espectro que nos sonda como uma harpia, escolhendo suas vítimas do alto. No passado era tão temido que nem se podia pronunciar seu nome - lembro da minha avó se referindo a "àquela doença" ao falar da causa morte de alguém - como se o simples substantivo comum fosse impregnado do poder mágico de atrair tão nefasta má sorte. A Medicina avançou muito nos últimos cem anos, mas o câncer (sinônimo de morte, e morte lenta e sofrida) continua sendo visto como uma entidade única, poderosa e temida, não como o que é: o crescimento descontrolado de células.
Quando a Companhia das Letras lançou "O Imperador de Todos os Males - uma biografia do Câncer" (em 2012), concebido por um médico indiano cuja difícil pronúncia complica sua memorização, Siddhartha Mukherjee (e preciso ler e reler várias vezes para me certificar se escrevi certo), logo me interessei em comprar. A princípio, pode-se pensar que não é uma literatura para muitos - suas 648 páginas impõem respeito - mas o texto flui levemente, mesclando história da Medicina, casos clínicos, o drama das equipes de saúde diante do fracasso de tratamentos, os bastidores dos maiores trabalhos na área, conquistas e curiosidades. Dos primórdios, no Antigo Egito, até os dias atuais, o autor expõe detalhes interessantíssimos de como a comunidade científica busca sua cura e como vem sendo frustrante para os médicos conviver com os limites da ciência diante deste enorme desafio. 
Num daqueles casos singulares, Mukherjee é médico-pesquisador com muito talento na escrita de modo a tornar o que seria uma leitura maçante e restrita a especialistas uma obra fácil de ler e de entender. Admiro a capacidade literária de alguns médicos, como o nosso Drauzio Varella, que conseguem traduzir temas complexos e herméticos, mas tão fundamentais de serem compreendidos por pessoas comuns, pacientes ou não, com a necessária simplicidade. É um médico jovem, porém experiente, nascido em Nova Delhi em 1970, formado em Harvard, especialista em Oncologia, tendo conhecimentos em Biologia e Imunologia.
O livro me prendeu por uma semana, talvez porque gosto de ler sobre medicina. Recomendo àqueles que desejam saber mais sobre a trajetória do câncer até a atualidade. Entretanto, concluí a obra com uma ligeira frustração, já que o nome me fez imaginar algo maior, mais completo e até futurista, à altura do Mito. Claro que meu desejo era ler que estamos muito perto da cura, tão perto como de uma maçã no galho acima de nossas cabeças, porém ainda se caminha em descompasso com a crescente demanda, acompanhando suas poucas pistas. Expectativas altas demais, portanto. Mesmo assim, é um livro especial.
Seu novo livro, "O Gene", também pela Companhia das Letras, está na minha lista de desejos. Trata de outro tema, a hereditariedade, mas se for tão interessante quanto o "Imperador" valerá cada segundo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Jo Nesbo, que decepção

Não tirei agosto para falar do meu desgosto com as últimas leituras, não! Mas o pior livro do mês foi "Sangue na Neve", de Jo Nesbo, editora Record.
Talvez por ser fã do escritor norueguês com cara de astro de rock (ele tem mesmo uma banda), minha expectativa era bem alta e fiquei desconcertada com a história tão pouco envolvente do assassino de aluguel Olav. Confesso, o livro estava em promoção e era bem compacto, dava para ler junto com outros - acabo tendo uma pilha ao lado do abajur, daí o nome do blog. Mas, acima de tudo, era um Jo Nesbo!
Escrito em primeira pessoa, "Sangue na Neve" envolve o monólogo do bom e cruel Olav, que por um lado se coloca capaz de coisas heroicas e por outro, das mais sórdidas. Só que o personagem, que seria profundamente humano em suas contradições existenciais, é tão superficial que não convence ninguém de nada. Aliás, senti raiva dele por vários momentos, até mesmo nos que Nesbo tenta trabalhar com o passado triste que evocaria lágrimas do leitor, ou ao menos sua compaixão. Comigo não colou.
Pela sinopse, Olav é contratado para matar a esposa adúltera de um traficante de drogas, mas cai de quatro por ela, que nada tem a ver com outra moça, bem menos glamourosa, que o protagonista acaba salvando da prostituição. Entre honrar sua palavra e manter a pele, acompanhamos um Olav fraco e insosso, que se envolve em algumas brigas para caminhar, abatido, para o final comum.
O livro difere dos que eu li não só em peso como em envolvimento. Nos outros, Nesbo se apresentou com um incrível talento para prender a leitura, cruzando informações com maestria. Neste, Nesbo pareceu escrever sob encomenda ou teimar em criar algo muito diferente de seu estilo afiado, mas o molho desandou, passou do ponto. (E pensar que o livro, que na propaganda lidera lista de best sellers, já tem direitos vendidos para virar filme...)
Quem sabe eu quisesse reviver o sabor do investigador Harry Hole em "Boneco de Neve", que tanto me prendeu do começo ao fim. Olav está a anos-luz de Hole, perdido em suas indefinições. Possível querer a empolgação de "A Estrela do Diabo", tão profundo, ou "O Redentor", com suas minúcias. Só sei que foi triste descobrir que até Jo Nesbo derrapa de vez em quando.

"Caixa de Pássaros": melhor fechada

"Caixa de Pássaros", romance de estreia de Josh Malerman, foi vendido como um thriller amedrontador, daqueles de deixar os fãs de terror insones por muitas noites. Por isso comprei. Mas, em que pese a excelente diagramação e o texto fluído, com capítulos curtos, tão fáceis de ler, o livro não me conquistou.
Meu interesse também partiu de a heroína ser mulher e mãe (quantas são, por favor, mulheres bravas que decidem fugir com as crias a tiracolo num cenário cheio de perigos em romances de terror?). Claro que, como mãe, me identifiquei com a proposta, que no final das contas me decepcionou bastante.
Para começar, a história nada tem de nova: num mundo pós-apocalíptico, alguns poucos tentam sobreviver a tragédias provocadas por enigmáticas criaturas vendando os olhos, já que quem as vê enlouquece e comete suicídio.
Neste ambiente vazio e hostil temos a presença da protagonista Malorie que, grávida, é acolhida por um grupo cuja harmonia se desestabiliza com a presença de um novo integrante. Anos depois, a moça e os filhos, um casal de crianças treinadas para viver no escuro, buscam fugir do mal numa canoa para algum tipo de paraíso.
Depois de um ritmo lento, em tempos alternados, quase corremos loucamente nas últimas páginas num esforço sobre-humano do autor em tornar a narrativa mais interessante para novamente desacelerar no final tão previsível.
Além de cenas inverossímeis (mesmo em fantasia, a falta de lógica desrespeita a inteligência do leitor), o enredo parece truncado, batido, sem graça. Nem nos momentos mais altos da leitura consegui sentir frio na barriga; o que tive foram bons bocejos.
Não acho que seja um livro desprezível, mas digo que esteja na triste média daquelas obras escritas para vender. Sem paixão, sem surpresas. Uma pena. Aos amantes do medo, um conselho: nem abram essa caixa.
Como disse, boa mesma só a diagramação (da "Ô de Casa").
"Caixa de Pássaros" foi lançado no Brasil em 2015 pela editora Intrínseca. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Acabadora"

Um livro simples, mas de uma poesia e uma leveza mais que apropriadas para abordar a finitude e o sofrimento sob um ângulo novo. Assim é "Acabadora", de Michela Murgia, lançado no Brasil pelo selo Alfaguara.
Um vilarejo, uma figura misteriosa, uma tradição.
Na figura de Maria, quarta filha de uma pobre viúva, adotada pela enigmática Bonaria Urrai, entramos na relação simbiótica das duas mulheres. O fio que as une é a costura, porém há algo maior, uma missão, que Maria intui ao desvendar segredos da mãe adotiva enquanto se vê às voltas com seus próprios questionamentos.
Ao longo da narrativa, que ocupa 152 páginas, acompanhamos a evolução da menina a mulher, ao mesmo tempo em que Bonaria vai sendo consumida pelo tempo. A mudança de Maria do vilarejo, seu primeiro amor, o retorno, toda sua trajetória funde-se ao passado da idosa.
Longe de ser uma leitura intensa e vibrante, "Acabadora" é um romance delicado, tranquilo, mas com um ritmo envolvente. Fala de feminino, amor, das subjetividades da vida e da morte, de escolhas e destinos. Acho que "filhos d´alma" foi a expressão que mais gostei, logo na primeira linha.
Um belo trabalho, o primeiro de autora italiana no Brasil.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Prisioneiros do Inverno

Faz frio aqui, acho que uns 16 graus que, para o litoral, é gélido. Com uma caneca de chá ao lado, devorei o livro "Prisioneiros do Inverno" em dois dias, cuja capa é uma paisagem de neve escondendo um casarão sinistro. A obra, da autora Jennifer McMahon, publicada no Brasil pela Record, gira em torno de um mistério na pequena cidade de West Hall e o diário da sua principal personagem, Sara Harrison Shea, encontrada morta (de maneira atroz) em 1908 em sua propriedade, onde paira uma assustadora lenda. O principal suspeito é o marido, Martin. Após sofrer a prematura morte da única filha, ainda criança, o casal se distancia e não consegue manter a normalidade da pacata vida rural onde vivem desde que nasceram. A situação se amplia a ponto de nenhum dos dois se reconhecer, a loucura espreitando seus destinos trágicos.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Médico aborda comunicação no tratamento oncológico

Apresentado como um guia, o livro "A comunicação médico-paciente no tratamento oncológico", escrito pelo oncologista Ricardo Caponero, é uma preciosa ferramenta para todos aqueles que se veem envolvidos com o câncer, útil não apenas a médicos como também a familiares, demais profissionais de saúde e pacientes. A publicação é da MG Editores. Bastante simples na apresentação, a obra contém mais que o essencial para tentar facilitar e favorecer o diálogo tão importante tanto no processo de enfrentamento da doença quanto na aceitação de situações irreversíveis.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.

domingo, 27 de setembro de 2015

"O Guardião Invisível" abre trilogia de Dolores Redondo

Os elogios da capa, atribuídos a El País, não traduzem minha impressão sobre "O Guardião Invisível", primeiro romance da trilogia sobre o trabalho da investigadora Amaia Salazar no vale do rio Baztán. Chego à página 360 com o incômodo de uma obra potencialmente boa que vai se confundindo a ponto de chegar ao vazio dos lugares-comuns. Não gostei do livro, apesar da leitura agradável pela escrita equilibrada. Poderia ter apreciado muito mais. Certamente não será daqueles livros que parecem eternos em minha memória.
Criada pela escritora Dolores Redondo, Amaia fascina como a mistura de policial destemida e mulher frágil, pelos momentos de paixão ao seu fiel marido, pelos erros e acertos que fazem dela uma pobre mortal e, ao mesmo tempo, a heroína que persegue a justiça. Porém, em "O Guardião Invisível", o primeiro que li da escritora que se dedica à gastronomia, notei que o enredo vai tomando formas tão díspares que se perde numa trama que tinha tudo para ser ótima, mas decepciona nos minutos finais, como aquele corredor que inicia na frente de todos e perde o impulso perto da chegada.
A história gira em torno da investigação, por Amaia e sua equipe masculina de inspetores, de crimes cometidos a adolescentes. O criminoso, que tudo leva a crer ser um serial killer, tem uma assinatura especial: um doce típico que deposita no ventre de suas vítimas. O crime faz ela voltar à sua cidade de origem, o pequeno povoado de Elizondo, e se confrontar com um passado traumático que a persegue desde a infância. No decorrer das páginas, ora acompanhamos a ação da investigadora, diretamente ligada às relações familiares e às crenças folclóricas locais, ora espreitamos Amaia ainda menina na doceria (!) que pertenceu a seus pais.
No povoado, com seu marido à tiracolo, a policial retoma suas origens na atualidade e é assolada por terríveis pesadelos que precisa esclarecer. Inicialmente cética em relação ao que não pode explicar, vai sucumbindo às crenças populares até abraçar seu lado místico. Outro aspecto obscuro que precisa lidar é a razão que a impede de engravidar, situação compartilhada pelas irmãs.
O livro é um romance policial, mas também ficção fantástica, onde a realidade não é relatada em fatos consistentes que nos convencem, mas flerta com seres lendários e o poder dos oráculos. Como disse, tem todos os ingredientes para uma receita de sucesso, mas o bolo infelizmente não cresceu. As únicas partes do livro que me fizeram pensar foram as que abordaram o quanto uma criança pode ser marcada por acontecimentos que fogem a seu controle, como um transtorno mental, por exemplo, sem contar com a proteção de adultos que deveriam estar a seu lado, mas preferiram se esquivar em nome da segurança das convenções sociais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"A Jornada de Felicia" - Trevor fora dos contos

Minha incursão pela obra do escritor William Trevor não foi pelos contos que o fizeram famoso, mas por um romance, "A Jornada de Felicia", publicado pelo selo Biblioteca Azul.
Trevor, que nasceu e passou quase toda vida em pequenas cidades da Irlanda, é também autor de "A história de Lucy Gault", que está na minha lista de desejos.
Antes de ler, costumo flertar com o livro em mãos logo após abrir a embalagem, já que quase todos adquiro por lojas virtuais, escolhendo pelas sinopses e títulos. Acho que a cor das páginas, a fonte das letras e a capa são importantes elementos nessa íntima relação entre autor e leitor. Neste caso, trabalho bem-feito da editora, com papel de qualidade, cores em harmonia, bela edição e uma capa que expressa bem o tom de mistério da história. 
Felicia, a personagem principal, deixa sua família numerosa na Irlanda e parte sozinha para Inglaterra, em busca do namorado que a engravidou. O rapaz disse-lhe apenas que trabalhava numa fábrica e assim, sem endereço nem informações consistentes, a garota de apenas dezessete anos se aventura nesta jornada que a faz diferente, que a transforma lentamente, quase sem que ela própria pudesse perceber. A viagem, entretanto, não tem a alegria de uma aventura, mas a premência de uma necessidade até incômoda.
Acompanhamos, nesta leitura ágil, a ingenuidade da garota, sua quase indestrutível esperança e a firmeza de seu caráter no processo de ruptura que marca a entrada para a vida adulta, ao mesmo tempo que a vemos cair em ciladas próprias da inexperiência, emergindo mais madura de seus erros para reconstruir uma realidade sonhada com aquilo que se apresenta no real. Um parênteses: impossível não se identificar com a adolescente Felicia quando olhamos para trás e percebemos nós mesmos, hoje sensatos adultos, no tempo em que tudo era possível. Chega a dar uma certa dor, o pesar pelas ilusões perdidas.
Simultaneamente conhecemos mr. Hilditch, um homem comum e estranho que surge na vida de Felicia e se oferece para ajudá-la a encontrar o namorado. Suas buscas se cruzam e nesse encontro vamos entrando numa trama envolvente, no ritmo crescente de um bom livro de suspense. Trevor nos coloca a par da vida provinciana de um pequeno povoado, desnudando um perfil que nada tem de pacato, em conflito com a solidão que marca os relacionamentos em cidades maiores. E na banalidade de ignoradas existências desnuda o que há de melhor e pior no ser humano. 
Gostei muito da experiência, certamente vou comprar outro romance de Trevor. Seu texto é objetivo, conciso e ligeiro, qualidades que aprecio. O final é coerente, embora não seja o ideal. Mas desejo muito descobrir seu lado contista, aguardando, ansiosa, a aquisição de seus Contos Completos. 

sábado, 11 de julho de 2015

A morte no olhar de Sukie Miller

Foi por intermédio de um livro da escritora Suzanne Lipsett ("A Aventura de Escrever", editora Ágora) que busquei o trabalho da psicóloga Sukie Miller sobre um tema que me interessa muito - a morte. O livro chama-se "Depois da Vida - Desvendando a Jornada Pós-morte", que me foi enviado por cortesia pela editora Summus Editorial há alguns meses. Trata-se basicamente de um trabalho de pesquisa amplo, minucioso e profundo, mesclado com experiências da própria autora em cerimônias religiosas e seu olhar pessoal sobre um dos grandes tabus da humanidade (na minha opinião, ainda o maior). Gratificante conhecer sua ligação com o Brasil por meio do estudioso Edmundo Barbosa, que teve participação direta nas fases que antecederam a conclusão da obra e assina o prefácio à edição brasileira.
Sua escrita fluente facilita a leitura das 224 páginas, mas é a profundidade de Miller que nos faz compartilhar a essência da sua busca sobre o pós-morte. Os relatos sobre pacientes terminais nos aproximam de uma situação que, embora certa e natural, invariavelmente causa muita dor e solidão que poderiam ser evitadas se tratássemos a morte com mais tranquilidade e aceitação.
Tópicos curtos se intercalam em duas partes, com apêndices, de forma a abordar a possibilidade da existência de algo além da vida e de embrenhar-se por caminhos em quatro estágios dessa jornada pela visão de diferentes culturas, entre as quais a indígena e a africana. Recomendo não apenas para quem quer se aprofundar sobre tanatologia como para todas as pessoas, em especial para aquelas que desejam oferecer conforto a pessoas à beira da morte, o que me faz lembrar de outro livro, chamado "A Solidão dos Moribundos", de Norbet Elias, que trata do estigma social que afeta as pessoas nessa condição e como o mundo ocidental afasta a morte para manter a ilusão de vida eterna.
Embora tenha percebido forte influência espiritualista na obra de Sukie Miller, o livro não me decepcionou e acrescentou novas reflexões às minhas perguntas existenciais. Mais do que jogar luz à finitude humana, Sukie Miller nos revela que a morte pode ser mais leve se tratada com simplicidade, poesia e coragem como parte da vida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Precisamos falar sobre o Kevin - Lionel Shriver



Enrolei muito até decidir comprar o livro "Precisamos falar sobre o Kevin", bem antes de saber que havia a versão em filme (que, aliás, não gostei). Nunca tinha lido nada de Lionel Shriver, que hoje está entre minhas autoras preferidas, e este seu sétimo romance me foi marcante. Demorei porque achei o tema chocante demais: a sinopse falava da mãe de um garoto que cometeu um massacre na escola. Por fim, comprei e digo-lhe: este livro me abalou tão profundamente que não consegui seguir a sequência habitual de leitura. Comecei, avancei, parei em momentos de indignação com a personagem principal, a mãe, chamada Eva. Prossegui, parei por sentir tão claramente situações que eu mesma enfrentei no papel de mãe, avancei novamente. Levei um longo tempo até o final surpreendente.
Para quem gosta de leitura ágil, "Precisamos falar sobre o Kevin" pode parecer cansativo porque Shriver esmiúça, disseca, põe o dedo no fundo da ferida que é ter um filho que contraria todas as suas expectativas. Em longas cartas ao pai do menino, com quem casou, Eva conta detalhadamente suas origens, como era sua vida antes do casamento, o período de namoro, a união, a gravidez e o nascimento de Kevin ao mesmo tempo em que relata como conseguiu sobreviver à tragédia, as humilhações, a culpa, a reflexão de quem permanece atônita diante do impossível que se revela real.
Nestas narrativas, a leitora (porque acho que é um livro escrito sobre e para mulheres, apesar de ser interessantíssimo que os homens o leiam) se reconhece num retrato atual dos pequenos dramas da vida cotidiana, com um pé na carreira, outro na família; entre o amor pelo marido e a revolta por sua falta de participação; a idealização da maternidade e a realidade inesperada; os sonhos e as renúncias, inclusive de partes de si mesma, que tem de fazer em nome do amor incondicional. 
No fluxo perfeito da narrativa, Shriver faz rir com seu humor ácido, por vezes negro, e também chorar. Acho que ela tem a rara habilidade de descrever os sentimentos que nós, mulheres, tentamos ocultar de nós mesmas e do mundo, sentimentos que vozes internalizadas gritam ser negativos, como a raiva, a inveja e a cobiça. 
Em "Precisamos falar sobre o Kevin", percebemos uma mãe insatisfeita e aflita, perdida e sobrecarregada, distante de si, e seu encontro com um bebê diferente, em quem projeta suas próprias dificuldades emocionais. Qualquer reação da criança revela um lado de si mesma que ela não quer encarar (lembrei agora do livro chamado "Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", de Laura Gutman, para quem quer se aprofundar). O relacionamento conturbado de Eva com o filho, que cresce, é acentuado com a chamada crise da adolescência e o nascimento da filha, Celia, a doce menina que veio restaurar a confiança de Eva em si mesma e confirmar a negatividade congênita de Kevin. A situação nesse relacionamento disfuncional vai se complicando cada vez mais, tendo como apogeu o crime praticado por Kevin e a frieza do adolescente diante de seu ato. Intenso, denso, trágico.
Não é uma leitura fácil. Chorei muitas vezes e fiquei perplexa com a profundidade deste livro que ganhou o Prêmio Orange de 2005. Talvez por isso não tenha gostado do filme, apesar do papel de Eva ter sido interpretado pela talentosa Tilda Swinton, indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz. São questões demais para os limites de uma filmadora.
Pode uma mãe ter amor e ódio por seu filho? Até onde vai e qual a real face do amor de mãe? Perguntas que me fiz ao terminá-lo. Concluí que Shriver fala de amor materno, mas não do amor mitológico e cultural, aquele amor de cena de novela em que, depois um parto doloroso, a mulher chora de emoção e abraça seu filho perfeito. Eva desnuda o amor bruto, imperfeito, ambíguo, inteiro, que machuca e que, mesmo assim, contrariando todas as possibilidades, nos revela o melhor de nós mesmas. O amor da mãe que chora quando todos esperam que ela ria, que recusa os papéis sociais que a obrigam ter, que não consegue dar aos filhos tudo que eles precisam e ousa dizer, em alto e bom som: "Mãe não é divina; mãe é humana!".

("Precisamos falar sobre o Kevin", Lionel Shriver. Intrínseca)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Livro do Cemitério - Neil Gaiman



Famoso pela série Sandman e referência em histórias em quadrinhos, o inglês Neil Gaiman escreve geralmente para crianças e adolescentes sobre temas incomuns como mitologia e terror, mas também produz livros em prosa e poesia para pessoas de todas as idades. Gosto da sua linguagem simples e fluída, mais ainda da criatividade e imaginação.
Depois de ler "O Oceano no Fim do Caminho", comprei "O Livro do Cemitério" pelo tema central: a morte. Achei interessante a sinopse. A história gira em torno de um bebê que sobreviveu à execução da família ao, casualmente, chegar a um cemitério próximo, onde foi salvo e adotado por seus estranhos habitantes para crescer e, enfim, desvendar o que motivou o homicídio. O problema é que ele, mesmo sendo protegido por aquela comunidade esquecida, vivendo em harmonia com os mortos, um dia terá que enfrentar a vida fora do cemitério e o perigo que nunca o deixou, assumindo sua condição de vivo. 
Do crime hediondo, descrito nas primeira páginas do livro, somos levados a conhecer Jack, o homicida. Contrariando todas as possibilidades, o vilão não consegue finalizar seu trabalho porque o caçula da família escapa engatinhando para a rua e de lá para o cemitério. Quando as criaturas fantásticas percebem a chegada da criança que está com a vida em risco, elas se reúnem e decidem, por regras próprias, se devem ou não ajudá-la, o que implica em aceitar algo novo. Receber o bebê, e mais que isso, adotá-lo, como deseja um casal de fantasmas que logo se candidata, exige a exposição de um universo fechado, secreto, o universo dos mortos e dos seres não-humanos, à convivência com os vivos. Mas o amor e a solidariedade vencem a autoproteção.
Engraçadas são as formas que os fantasmas e seres deste mundo paralelo encontram para satisfazer as necessidades do menino, que passou a ser chamado de Ninguém Owens, como o aleitamento, por exemplo. Eles vivem em suas tumbas e não necessitam, como os mortais, de comida, escola e trabalho. Vivem um cotidiano repetido, lembrando do quem foram em vida, e o menino se desenvolve neste cenário, aos cuidados dos pais fantasmas adotivos e sob a proteção de um tutor, Silas, que não é morto, nem vivo. Silas passa a amar o menino de tal forma que o prepara para a independência e a inevitável dor da partida (se para nós morrer é partir, para Owens viver é partir).  
Aos poucos, o menino cresce sob a tutela de seres fantásticos até que terá de esclarecer e encarar sua vida de mortal, decifrando enigmas e construindo sua história. Surgem figuras femininas para acompanhá-lo nesse processo de amadurecimento. 
O medo de Owen não é da morte, como todo mortal, porque para ele a morte é aconchego e segurança, o que lhe é familiar e querido. Seu medo é da separação. Mas sob as mãos afetuosas dos mortos e de Silas, seu mentor e guardião, ele terá que desenvolver a coragem de romper com o conhecido, avançar os limites do cemitério num caminho inverso ao que fez quando bebê, e aprender a viver.
Um presente ao leitor são as belas ilustrações que acompanham os capítulos, feitas por Dave McKean.
Acho que o livro é uma linda fábula sobre o amor incondicional, as perdas necessárias e a tolerância com as diferenças, abordando a morte de um ângulo ingênuo e até lúdico, mas muito delicado. Amei.

("O Livro do Cemitério", Neil Gaiman. Editora Rocco, selo Jovens Leitores)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O Redentor - Jo Nesbo



Ex-jogador, economista, compositor de banda de rock. Descrever Jo Nesbo (desculpe, não consegui escrever o "o" partido do alfabeto norueguês) é tão difícil como entender o investigador Harry Hole, seu principal personagem. Dependente de álcool e drogas, mal amado, negligente e até autossabotador, lidera investigações policiais bem-sucedidas graças a seu talento, coragem e disposição para riscos. As aventuras de Hole nos thrillers de Nesbo são complexas, meticulosas, densas.
"O Redentor" começa com o estupro de uma menina de 14 anos em um acampamento de verão do Exército de Salvação. Doze anos depois, no show de Natal organizado pela mesma entidade, um de seus participantes é executado no meio da multidão por um matador de aluguel. Ambientado em Oslo, o livro é dividido em partes, abordando histórias que se cruzam enquanto a investigação de Hole tem seu curso.

"Andou pelo bosque com neve até o joelhos, e lá ficou sentado vendo o dia amanhecer. Esperava que o frio congelasse, aliviasse ou pelo menos adormecesse seus sentimentos"

Eu gostei demais, do começo ao fim. Acho que Nesbo tem um estilo meio seco que combina com seu personagem. Hole anda pelo submundo do crime, tenta se salvar de seus próprios fantasmas, vive correndo atrás da mulher pela qual é apaixonado e, sem sucesso, busca conciliar profissão com vida pessoal, velho dilema. É uma espécie estranha de herói, vive em bares, meio destruído, atormentado pelo que não conseguiu fazer bem. Daqueles caras que a gente quer salvar de si mesmo.
Na relação com o trabalho, Hole enfrenta ainda relacionamentos conflituosos com colegas e superiores, despertando a ira de alguns que, embora pareçam cidadãos de respeito, não são. Isso é interessante: Hole, apesar de incorrigível e de seus vícios, tem uma alma pura.
O legal em "O Redentor" é que questões religiosas são discutidas ao avançar da investigação, descoberta e perseguição ao criminoso. O certo e o errado, distorcidos pela rigidez de dogmas, pela condenação de pecados. Quem é quem numa organização que prega a solidariedade e o que se pode fazer de ruim sob o manto de uma boa imagem.
Legal a capa, que tem tudo a ver com a história.
Aproveite cada página. Nesbo é mestre no policial.

("O Redentor", Jo Nesbo. Editora Record)

Marina - Carlos Ruiz Zafón



Comecei a ler Carlos Ruiz Zafón pelo romance "Marina". E foi o melhor livro que eu li do autor de sucessos como "A Sombra do Vento" e "O Jogo do Anjo". Na Nota do Autor, ele explica que este quarto romance publicado foi concebido para leitores jovens com a esperança de ter um apelo para gente de todas as idades. O resultado foi um livro simples, mas daqueles que você tem saudade quando fecha a última página.
"Marina" mescla aventura, suspense, ficção fantástica e romance. Relatado em primeira pessoa por Óscar Drai, um menino órfão que desapareceu do internato onde estudava por uma semana, aborda suas aventuras ao conhecer Marina, uma garota misteriosa, que supre sua ânsia por liberdade e amor. Juntos, eles passeiam por lugares inusitados, enfrentam situações surreais e firmam uma amizade eterna.

"Marina me disse um dia que a gente só se lembra do que nunca aconteceu. 
Ainda ia se passar uma eternidade antes que eu pudesse compreender essas palavras"

Quantas vezes, na infância que nos permite fantasiar com liberdade, a gente imaginou coisas que não existiram ou fingimos não ter vivido coisas que não deveriam ter existido? Outro dia li uma explicação psicológica sobre o quanto do que lembramos realmente nos aconteceu quando crianças e o que aconteceu mas a gente apagou da memória. Ficaríamos surpresos se pudéssemos ver um filme do nosso passado como ele realmente aconteceu e a interpretação que damos para nos proteger da dor, sobreviver a ela. O que guardamos naquele lugar escuro e de difícil acesso que é o inconsciente?

"O tempo não nos torna mais sábios, apenas mais covardes"

Ler "Marina" é voltar àquele período mágico entre o fim da infância e o começo da vida adulta, é um confronto com a magia da imaginação que torna a vida mais leve e que precisamos resgatar para sermos plenos. Um delicioso passeio por uma Barcelona gótica, romântica e imersa na densa névoa de um tempo que não volta mais. E talvez nunca tenha havido.

("Marina", Carlos Ruiz Zafón. Suma de Letras)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ratos



Este livro me prendeu do princípio ao fim. Fui fisgada pelo ritmo ágil de Gordon Reece em seu primeiro romance e pelo enredo, que, embora não seja original, traz consigo reflexões muito interessantes numa época em que a violência se banalizou.
Aborda intolerância e resistência, violência e paz, ódio e amor, segredos e o acaso, este acaso que muda tudo numa fração de segundos. Também fala do que somos: nem anjos, nem demônios; nem ratos, nem gatos. Seres duais, não raro antagônicos, em que a humanidade às vezes se depara com a sobrevivência. É neste conflito que o livro age sobre o leitor.

"Quando um gato entra na toca dos ratos, 
ele não vai embora deixando-os ilesos. 
Eu sabia como aquela história iria terminar. 
Ele mataria nós duas"

"Ratos" foi escrito em primeira pessoa. Quem narra é a adolescente Shelley, que vive com a mãe. Logo no início, a garota descreve a casa ideal que as duas encontram para finalmente viver em paz: confortável, aconchegante e isolada. A casa perfeita na verdade é o refúgio que mãe e filha buscavam depois de muito sofrimento na cidade, principalmente Shelley, pelo bullying que sofria de ex-colegas na escola e que quase culminou em tragédia, inviabilizando seu estudo em sala de aula.
Acostumadas a suportar humilhações, a aceitar a dor imposta pelos outros como parte da "lei do mais forte" e a se resignar à condição de pessoas frágeis e pacíficas, decidiram abandonar tudo que tinham em busca do isolamento que lhes garantiria a tão sonhada paz. Condenadas ao exílio, vitimizadas e duplamente penalizadas, elas queriam tranquilidade e segurança para viver com simplicidade, sem prejudicar ninguém. Elas se bastavam pelo amor mútuo, e tudo estava ótimo.
Mas no aniversário de dezesseis anos de Shelley algo mudaria o que elas construíram. O paraíso foi ameaçado, assim como suas próprias vidas. Se na primeira parte do livro a revolta diante do penoso cotidiano da adolescente e sua mãe nos provoca uma enorme inquietação, na segunda parte do livro a narrativa se torna vibrante e tensa a cada página, que eu devorei com entusiasmo.
Recomendo o romance de Reece para quem deseja um livro bem escrito, num ritmo de suspense que me surpreendeu. Pelo preço de promoção que estão vendendo em lojas virtuais, é uma excelente aquisição.
A partir de um acontecimento que parece até banal de tão frequente em noticiários policiais de emissoras de tevê, acompanhamos a transformação (ou a revelação) de duas mulheres para além das suas próprias identidades.
Aguardo, ansiosa, mais livros deste autor.

("Ratos", Gordon Reece. Editora Intrínseca)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Dupla Falta


"Dupla Falta", assim como outros livros de Lionel Shrider que tive oportunidade de ler, evoca nossos próprios sentimentos humanos quando ela disseca personagens comuns, banais, que poderiam ser nós mesmos porque já passamos por isso (principalmente quando se tem, como eu, mais de 40). Quando falo nós, refiro-me especialmente às mulheres. Porque Willy é a personagem central do livro, uma tenista jovem que se vê entre viver um grande amor e seguir uma carreira brilhante contrariando todas as probabilidades. Se dependesse do apoio da família, idade, condição financeira, já estaria fora das quadras, ou melhor, nem teria entrado. Mas a moça foca seu objetivo e luta para chegar entre as melhores. Jovem demais para a vida, no limiar da velhice para o esporte, Willy se concentra de forma hercúlea na base do seu mundo idealizado: o tênis, e se confunde com ele. Não há mais limites, eles se fundem numa coisa só.
Mas eis que surge na sua vida organizada, segura e metódica, criada sob medida para um fim específico (a vitória), um rapaz chamado Eric que - bingo! - adora jogar tênis. Não como ela, amalgamada no esporte, mas sob um olhar diferente: autônomo, independente. Seguro de si, ele tem tudo que Willy não tem (apoio da família, dinheiro, um corpo mais forte) e vê o tênis como um meio para a felicidade, não como um fim em si mesmo. Enquanto a paixão começa sorrateira a se infiltrar pelo universo de Willy, transformando-se num amor irresistível, sua própria autoimagem é posta à prova.
Confesso que "Dupla Falta" foi o livro mais leve de Shrider que eu li, depois do soco no estômago que é "Vamos Falar com Kevin" e do afago que me deu "Tempo é Dinheiro". Mas é de uma leveza estonteante, arrastado como o cotidiano feminino. A autora diz, logo no começo, que se trata mais de um livro sobre casamento do que sobre tênis, o que é verdade - portanto, esqueça o linguajar e expressões técnicas e regras, são somente pano de fundo para um assunto mais profundo: a condição feminina. 
Eu diria que é mais um livro sobre as escolhas que as mulheres fazem e, mais ainda, sobre uma questão que me debato faz tempo: por que insistimos em nos condenar ao "ou" quando poderíamos, como os homens, optar pelo "e"? O que está por trás do sacrifício? Ou do próprio amor? São questões que refletimos no decorrer do livro, pois Willy e Eric são polos semelhantes por compartilhar o gosto pelo esporte, temperado com histórias diferentes, personalidades plurais e propósitos de vida únicos. O desafio parece ser o próprio cotidiano, sobreviver às próprias exigências (mais que às dos outros), ter e exercitar empatia, o amor incondicional. Lemos o livro como se assiste a uma partida de tênis - quem sabe se identificando com um jogador e torcendo pelo outro, como foi meu caso. 
Falar do texto de Shrider é dispensável, visto que ela é mestra na linguagem fluída, ótima como sempre na construção dos capítulos. A leitura não cansa, mas também não empolga como num thriller. Segue o ritmo da vida com seus altos e baixos.
Recomendo o livro para amantes de obras que nos empurram para além da superfície da água, revelando o que buscamos esconder sob a máscara social. Valeu para mim. Emergi de suas páginas mais leve e verdadeira. 

("Dupla Falta, Lionel Shriver. Editora Intrínseca)

    Tempo é Dinheiro




      Admiro o trabalho da escritora Lionel Shriver pela capacidade que ela tem de construir personagens que poderiam ser eu ou você, comuns, mas que se revelam tão especiais. Humanos, banais, mortais e singulares.
      "Tempo é Dinheiro" me fisgou pelo tema: morte. Sou atraída pela morte, leio sobre a finitude, não no sentido mórbido, mas no sentido libertador da palavra. A morte é, até mais que o sexo, um assunto difícil. Talvez seja nosso último tabu. Acomete a todos, mas todo mundo finge que só vai acontecer com os outros. Voltando ao livro, a obra utiliza a morte como tema principal, mas, na minha visão, aborda principalmente as escolhas. 
      Ao contrário do que li em muitas sinopses, não acho que se limita a ser uma crítica ao sistema de saúde norte-americano. Shriver se utiliza desse cenário para tecer o dilema do personagem principal, o bom Shep, que sonha escapar da mediocridade de um emprego que detesta e finalmente realizar seu sonho de viver num lugar simples, natural e belo. Um desejo prorrogado, adiado, em nome da passividade segura, da covardia que lhe serve de abrigo e das escolhas que fez. Esse lugar tem nome: Pemba, na África, continente que conheceu ainda criança ao lado do pai, um pastor, eternizado em suas lembranças.
      Como tantas vezes na vida, principalmente quando a meia-idade se aproxima, cresce o desejo de Shep de concretizar seu sonho, planejado há tempos e razão de um dinheiro guardado numa conta secreta para esse fim. Ele vende sua empresa, mas acaba ficando mais um pouquinho, como empregado, suportando humilhações e pressões do seu ex-empregado, agora patrão. O limiar de tolerância chega a níveis estratosféricos e quando ele, pressionado por si mesmo, resolve finalmente romper com a sofrida cadência de dias insuportáveis e anunciar sua libertação, para alegria de seu melhor amigo, quem sabe o único, uma mudança se impõe. Ele compra as passagens para ele e sua família, pede demissão, faz as malas. Quando anuncia à esposa, Glynis, sua decisão, ouve dela que está seriamente doente e precisa, mais que nunca, do plano de saúde da empresa. Shep então precisa decidir o que lhe é mais importante e o caminho a seguir.    
      Acho que este é um livro ensolarado, por mais contraditório que isso possa parecer, já que aborda a morte. Sim, a leitura é monótona às vezes, muito detalhista e chega a ser até arrastada. Mas compensa cada página para leitores que se interessam por questões humanas. Esperava muito pesar, porém o livro me pareceu alegre e cheio de esperança como uma fábula. Mesmo nos momentos mais densos, o tom é de humor, por vezes negro, ácido, mas sempre presente. Talvez seja esse o desafio: rir das coisas que nos metem medo, como me sugeriu certa vez uma sábia amiga psicóloga.
      "Tempo é Dinheiro" não gira somente nas adversidades da família de Shep, mas envolve um núcleo secundário, a família de seu melhor amigo. Fala de pessoas, do que realmente somos para além do nosso mundinho particular. Fala de amor, medo, coragem, verdade, abordando o casamento sob uma ótica nova, o lado B da promessa de sermos fieis "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza" que ninguém quer experimentar.
      Shriver, mais uma vez, não me decepcionou.

      ("Tempo é Dinheiro", Lionel Shriver. Editora Intrínseca)