Faz frio aqui, acho que uns 16 graus que, para o litoral, é gélido. Com uma caneca de chá ao lado, devorei o livro "Prisioneiros do Inverno" em dois dias, cuja capa é uma paisagem de neve escondendo um casarão sinistro. A obra, da autora Jennifer McMahon, publicada no Brasil pela Record, gira em torno de um mistério na pequena cidade de West Hall e o diário da sua principal personagem, Sara Harrison Shea, encontrada morta (de maneira atroz) em 1908 em sua propriedade, onde paira uma assustadora lenda. O principal suspeito é o marido, Martin. Após sofrer a prematura morte da única filha, ainda criança, o casal se distancia e não consegue manter a normalidade da pacata vida rural onde vivem desde que nasceram. A situação se amplia a ponto de nenhum dos dois se reconhecer, a loucura espreitando seus destinos trágicos.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.
Abro as portas dessa biblioteca infinita que é o saber. Nesta viagem, ofereço-lhe apenas meu olhar e meus sentimentos, como leitora apaixonada, em resenhas sobre um sem fim de livros. De policiais a infantis, de biografias a poesias, de receitas culinárias a obras de psicologia, quase tudo me interessa e espero compartilhar com você. Boa leitura!
sexta-feira, 17 de junho de 2016
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Médico aborda comunicação no tratamento oncológico
Apresentado como um guia, o livro "A comunicação médico-paciente no tratamento oncológico", escrito pelo oncologista Ricardo Caponero, é uma preciosa ferramenta para todos aqueles que se veem envolvidos com o câncer, útil não apenas a médicos como também a familiares, demais profissionais de saúde e pacientes. A publicação é da MG Editores. Bastante simples na apresentação, a obra contém mais que o essencial para tentar facilitar e favorecer o diálogo tão importante tanto no processo de enfrentamento da doença quanto na aceitação de situações irreversíveis.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
domingo, 27 de setembro de 2015
"O Guardião Invisível" abre trilogia de Dolores Redondo
Os elogios da capa, atribuídos a El País, não traduzem minha impressão sobre "O Guardião Invisível", primeiro romance da trilogia sobre o trabalho da investigadora Amaia Salazar no vale do rio Baztán. Chego à página 360 com o incômodo de uma obra potencialmente boa que vai se confundindo a ponto de chegar ao vazio dos lugares-comuns. Não gostei do livro, apesar da leitura agradável pela escrita equilibrada. Poderia ter apreciado muito mais. Certamente não será daqueles livros que parecem eternos em minha memória.
Criada pela escritora Dolores Redondo, Amaia fascina como a mistura de policial destemida e mulher frágil, pelos momentos de paixão ao seu fiel marido, pelos erros e acertos que fazem dela uma pobre mortal e, ao mesmo tempo, a heroína que persegue a justiça. Porém, em "O Guardião Invisível", o primeiro que li da escritora que se dedica à gastronomia, notei que o enredo vai tomando formas tão díspares que se perde numa trama que tinha tudo para ser ótima, mas decepciona nos minutos finais, como aquele corredor que inicia na frente de todos e perde o impulso perto da chegada.
A história gira em torno da investigação, por Amaia e sua equipe masculina de inspetores, de crimes cometidos a adolescentes. O criminoso, que tudo leva a crer ser um serial killer, tem uma assinatura especial: um doce típico que deposita no ventre de suas vítimas. O crime faz ela voltar à sua cidade de origem, o pequeno povoado de Elizondo, e se confrontar com um passado traumático que a persegue desde a infância. No decorrer das páginas, ora acompanhamos a ação da investigadora, diretamente ligada às relações familiares e às crenças folclóricas locais, ora espreitamos Amaia ainda menina na doceria (!) que pertenceu a seus pais.
No povoado, com seu marido à tiracolo, a policial retoma suas origens na atualidade e é assolada por terríveis pesadelos que precisa esclarecer. Inicialmente cética em relação ao que não pode explicar, vai sucumbindo às crenças populares até abraçar seu lado místico. Outro aspecto obscuro que precisa lidar é a razão que a impede de engravidar, situação compartilhada pelas irmãs.
O livro é um romance policial, mas também ficção fantástica, onde a realidade não é relatada em fatos consistentes que nos convencem, mas flerta com seres lendários e o poder dos oráculos. Como disse, tem todos os ingredientes para uma receita de sucesso, mas o bolo infelizmente não cresceu. As únicas partes do livro que me fizeram pensar foram as que abordaram o quanto uma criança pode ser marcada por acontecimentos que fogem a seu controle, como um transtorno mental, por exemplo, sem contar com a proteção de adultos que deveriam estar a seu lado, mas preferiram se esquivar em nome da segurança das convenções sociais.
Criada pela escritora Dolores Redondo, Amaia fascina como a mistura de policial destemida e mulher frágil, pelos momentos de paixão ao seu fiel marido, pelos erros e acertos que fazem dela uma pobre mortal e, ao mesmo tempo, a heroína que persegue a justiça. Porém, em "O Guardião Invisível", o primeiro que li da escritora que se dedica à gastronomia, notei que o enredo vai tomando formas tão díspares que se perde numa trama que tinha tudo para ser ótima, mas decepciona nos minutos finais, como aquele corredor que inicia na frente de todos e perde o impulso perto da chegada.
A história gira em torno da investigação, por Amaia e sua equipe masculina de inspetores, de crimes cometidos a adolescentes. O criminoso, que tudo leva a crer ser um serial killer, tem uma assinatura especial: um doce típico que deposita no ventre de suas vítimas. O crime faz ela voltar à sua cidade de origem, o pequeno povoado de Elizondo, e se confrontar com um passado traumático que a persegue desde a infância. No decorrer das páginas, ora acompanhamos a ação da investigadora, diretamente ligada às relações familiares e às crenças folclóricas locais, ora espreitamos Amaia ainda menina na doceria (!) que pertenceu a seus pais.
No povoado, com seu marido à tiracolo, a policial retoma suas origens na atualidade e é assolada por terríveis pesadelos que precisa esclarecer. Inicialmente cética em relação ao que não pode explicar, vai sucumbindo às crenças populares até abraçar seu lado místico. Outro aspecto obscuro que precisa lidar é a razão que a impede de engravidar, situação compartilhada pelas irmãs.
O livro é um romance policial, mas também ficção fantástica, onde a realidade não é relatada em fatos consistentes que nos convencem, mas flerta com seres lendários e o poder dos oráculos. Como disse, tem todos os ingredientes para uma receita de sucesso, mas o bolo infelizmente não cresceu. As únicas partes do livro que me fizeram pensar foram as que abordaram o quanto uma criança pode ser marcada por acontecimentos que fogem a seu controle, como um transtorno mental, por exemplo, sem contar com a proteção de adultos que deveriam estar a seu lado, mas preferiram se esquivar em nome da segurança das convenções sociais.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
"A Jornada de Felicia" - Trevor fora dos contos
Minha incursão pela obra do escritor William Trevor não foi pelos contos que o fizeram famoso, mas por um romance, "A Jornada de Felicia", publicado pelo selo Biblioteca Azul.
Trevor, que nasceu e passou quase toda vida em pequenas cidades da Irlanda, é também autor de "A história de Lucy Gault", que está na minha lista de desejos.
Antes de ler, costumo flertar com o livro em mãos logo após abrir a embalagem, já que quase todos adquiro por lojas virtuais, escolhendo pelas sinopses e títulos. Acho que a cor das páginas, a fonte das letras e a capa são importantes elementos nessa íntima relação entre autor e leitor. Neste caso, trabalho bem-feito da editora, com papel de qualidade, cores em harmonia, bela edição e uma capa que expressa bem o tom de mistério da história.
Felicia, a personagem principal, deixa sua família numerosa na Irlanda e parte sozinha para Inglaterra, em busca do namorado que a engravidou. O rapaz disse-lhe apenas que trabalhava numa fábrica e assim, sem endereço nem informações consistentes, a garota de apenas dezessete anos se aventura nesta jornada que a faz diferente, que a transforma lentamente, quase sem que ela própria pudesse perceber. A viagem, entretanto, não tem a alegria de uma aventura, mas a premência de uma necessidade até incômoda.
Acompanhamos, nesta leitura ágil, a ingenuidade da garota, sua quase indestrutível esperança e a firmeza de seu caráter no processo de ruptura que marca a entrada para a vida adulta, ao mesmo tempo que a vemos cair em ciladas próprias da inexperiência, emergindo mais madura de seus erros para reconstruir uma realidade sonhada com aquilo que se apresenta no real. Um parênteses: impossível não se identificar com a adolescente Felicia quando olhamos para trás e percebemos nós mesmos, hoje sensatos adultos, no tempo em que tudo era possível. Chega a dar uma certa dor, o pesar pelas ilusões perdidas.
Simultaneamente conhecemos mr. Hilditch, um homem comum e estranho que surge na vida de Felicia e se oferece para ajudá-la a encontrar o namorado. Suas buscas se cruzam e nesse encontro vamos entrando numa trama envolvente, no ritmo crescente de um bom livro de suspense. Trevor nos coloca a par da vida provinciana de um pequeno povoado, desnudando um perfil que nada tem de pacato, em conflito com a solidão que marca os relacionamentos em cidades maiores. E na banalidade de ignoradas existências desnuda o que há de melhor e pior no ser humano.
Gostei muito da experiência, certamente vou comprar outro romance de Trevor. Seu texto é objetivo, conciso e ligeiro, qualidades que aprecio. O final é coerente, embora não seja o ideal. Mas desejo muito descobrir seu lado contista, aguardando, ansiosa, a aquisição de seus Contos Completos.
sábado, 11 de julho de 2015
A morte no olhar de Sukie Miller
Foi por intermédio de um livro da escritora Suzanne Lipsett ("A Aventura de Escrever", editora Ágora) que busquei o trabalho da psicóloga Sukie Miller sobre um tema que me interessa muito - a morte. O livro chama-se "Depois da Vida - Desvendando a Jornada Pós-morte", que me foi enviado por cortesia pela editora Summus Editorial há alguns meses. Trata-se basicamente de um trabalho de pesquisa amplo, minucioso e profundo, mesclado com experiências da própria autora em cerimônias religiosas e seu olhar pessoal sobre um dos grandes tabus da humanidade (na minha opinião, ainda o maior). Gratificante conhecer sua ligação com o Brasil por meio do estudioso Edmundo Barbosa, que teve participação direta nas fases que antecederam a conclusão da obra e assina o prefácio à edição brasileira.
Sua escrita fluente facilita a leitura das 224 páginas, mas é a profundidade de Miller que nos faz compartilhar a essência da sua busca sobre o pós-morte. Os relatos sobre pacientes terminais nos aproximam de uma situação que, embora certa e natural, invariavelmente causa muita dor e solidão que poderiam ser evitadas se tratássemos a morte com mais tranquilidade e aceitação.
Tópicos curtos se intercalam em duas partes, com apêndices, de forma a abordar a possibilidade da existência de algo além da vida e de embrenhar-se por caminhos em quatro estágios dessa jornada pela visão de diferentes culturas, entre as quais a indígena e a africana. Recomendo não apenas para quem quer se aprofundar sobre tanatologia como para todas as pessoas, em especial para aquelas que desejam oferecer conforto a pessoas à beira da morte, o que me faz lembrar de outro livro, chamado "A Solidão dos Moribundos", de Norbet Elias, que trata do estigma social que afeta as pessoas nessa condição e como o mundo ocidental afasta a morte para manter a ilusão de vida eterna.
Embora tenha percebido forte influência espiritualista na obra de Sukie Miller, o livro não me decepcionou e acrescentou novas reflexões às minhas perguntas existenciais. Mais do que jogar luz à finitude humana, Sukie Miller nos revela que a morte pode ser mais leve se tratada com simplicidade, poesia e coragem como parte da vida.
Sua escrita fluente facilita a leitura das 224 páginas, mas é a profundidade de Miller que nos faz compartilhar a essência da sua busca sobre o pós-morte. Os relatos sobre pacientes terminais nos aproximam de uma situação que, embora certa e natural, invariavelmente causa muita dor e solidão que poderiam ser evitadas se tratássemos a morte com mais tranquilidade e aceitação.
Tópicos curtos se intercalam em duas partes, com apêndices, de forma a abordar a possibilidade da existência de algo além da vida e de embrenhar-se por caminhos em quatro estágios dessa jornada pela visão de diferentes culturas, entre as quais a indígena e a africana. Recomendo não apenas para quem quer se aprofundar sobre tanatologia como para todas as pessoas, em especial para aquelas que desejam oferecer conforto a pessoas à beira da morte, o que me faz lembrar de outro livro, chamado "A Solidão dos Moribundos", de Norbet Elias, que trata do estigma social que afeta as pessoas nessa condição e como o mundo ocidental afasta a morte para manter a ilusão de vida eterna.
Embora tenha percebido forte influência espiritualista na obra de Sukie Miller, o livro não me decepcionou e acrescentou novas reflexões às minhas perguntas existenciais. Mais do que jogar luz à finitude humana, Sukie Miller nos revela que a morte pode ser mais leve se tratada com simplicidade, poesia e coragem como parte da vida.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Precisamos falar sobre o Kevin - Lionel Shriver
Para quem gosta de leitura ágil, "Precisamos falar sobre o Kevin" pode parecer cansativo porque Shriver esmiúça, disseca, põe o dedo no fundo da ferida que é ter um filho que contraria todas as suas expectativas. Em longas cartas ao pai do menino, com quem casou, Eva conta detalhadamente suas origens, como era sua vida antes do casamento, o período de namoro, a união, a gravidez e o nascimento de Kevin ao mesmo tempo em que relata como conseguiu sobreviver à tragédia, as humilhações, a culpa, a reflexão de quem permanece atônita diante do impossível que se revela real.
Nestas narrativas, a leitora (porque acho que é um livro escrito sobre e para mulheres, apesar de ser interessantíssimo que os homens o leiam) se reconhece num retrato atual dos pequenos dramas da vida cotidiana, com um pé na carreira, outro na família; entre o amor pelo marido e a revolta por sua falta de participação; a idealização da maternidade e a realidade inesperada; os sonhos e as renúncias, inclusive de partes de si mesma, que tem de fazer em nome do amor incondicional.
No fluxo perfeito da narrativa, Shriver faz rir com seu humor ácido, por vezes negro, e também chorar. Acho que ela tem a rara habilidade de descrever os sentimentos que nós, mulheres, tentamos ocultar de nós mesmas e do mundo, sentimentos que vozes internalizadas gritam ser negativos, como a raiva, a inveja e a cobiça.
Em "Precisamos falar sobre o Kevin", percebemos uma mãe insatisfeita e aflita, perdida e sobrecarregada, distante de si, e seu encontro com um bebê diferente, em quem projeta suas próprias dificuldades emocionais. Qualquer reação da criança revela um lado de si mesma que ela não quer encarar (lembrei agora do livro chamado "Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", de Laura Gutman, para quem quer se aprofundar). O relacionamento conturbado de Eva com o filho, que cresce, é acentuado com a chamada crise da adolescência e o nascimento da filha, Celia, a doce menina que veio restaurar a confiança de Eva em si mesma e confirmar a negatividade congênita de Kevin. A situação nesse relacionamento disfuncional vai se complicando cada vez mais, tendo como apogeu o crime praticado por Kevin e a frieza do adolescente diante de seu ato. Intenso, denso, trágico.
Não é uma leitura fácil. Chorei muitas vezes e fiquei perplexa com a profundidade deste livro que ganhou o Prêmio Orange de 2005. Talvez por isso não tenha gostado do filme, apesar do papel de Eva ter sido interpretado pela talentosa Tilda Swinton, indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz. São questões demais para os limites de uma filmadora.
Pode uma mãe ter amor e ódio por seu filho? Até onde vai e qual a real face do amor de mãe? Perguntas que me fiz ao terminá-lo. Concluí que Shriver fala de amor materno, mas não do amor mitológico e cultural, aquele amor de cena de novela em que, depois um parto doloroso, a mulher chora de emoção e abraça seu filho perfeito. Eva desnuda o amor bruto, imperfeito, ambíguo, inteiro, que machuca e que, mesmo assim, contrariando todas as possibilidades, nos revela o melhor de nós mesmas. O amor da mãe que chora quando todos esperam que ela ria, que recusa os papéis sociais que a obrigam ter, que não consegue dar aos filhos tudo que eles precisam e ousa dizer, em alto e bom som: "Mãe não é divina; mãe é humana!".
("Precisamos falar sobre o Kevin", Lionel Shriver. Intrínseca)
domingo, 8 de fevereiro de 2015
O Livro do Cemitério - Neil Gaiman
Famoso pela série Sandman e referência em histórias em quadrinhos, o inglês Neil Gaiman escreve geralmente para crianças e adolescentes sobre temas incomuns como mitologia e terror, mas também produz livros em prosa e poesia para pessoas de todas as idades. Gosto da sua linguagem simples e fluída, mais ainda da criatividade e imaginação.
Depois de ler "O Oceano no Fim do Caminho", comprei "O Livro do Cemitério" pelo tema central: a morte. Achei interessante a sinopse. A história gira em torno de um bebê que sobreviveu à execução da família ao, casualmente, chegar a um cemitério próximo, onde foi salvo e adotado por seus estranhos habitantes para crescer e, enfim, desvendar o que motivou o homicídio. O problema é que ele, mesmo sendo protegido por aquela comunidade esquecida, vivendo em harmonia com os mortos, um dia terá que enfrentar a vida fora do cemitério e o perigo que nunca o deixou, assumindo sua condição de vivo.
Do crime hediondo, descrito nas primeira páginas do livro, somos levados a conhecer Jack, o homicida. Contrariando todas as possibilidades, o vilão não consegue finalizar seu trabalho porque o caçula da família escapa engatinhando para a rua e de lá para o cemitério. Quando as criaturas fantásticas percebem a chegada da criança que está com a vida em risco, elas se reúnem e decidem, por regras próprias, se devem ou não ajudá-la, o que implica em aceitar algo novo. Receber o bebê, e mais que isso, adotá-lo, como deseja um casal de fantasmas que logo se candidata, exige a exposição de um universo fechado, secreto, o universo dos mortos e dos seres não-humanos, à convivência com os vivos. Mas o amor e a solidariedade vencem a autoproteção.
Engraçadas são as formas que os fantasmas e seres deste mundo paralelo encontram para satisfazer as necessidades do menino, que passou a ser chamado de Ninguém Owens, como o aleitamento, por exemplo. Eles vivem em suas tumbas e não necessitam, como os mortais, de comida, escola e trabalho. Vivem um cotidiano repetido, lembrando do quem foram em vida, e o menino se desenvolve neste cenário, aos cuidados dos pais fantasmas adotivos e sob a proteção de um tutor, Silas, que não é morto, nem vivo. Silas passa a amar o menino de tal forma que o prepara para a independência e a inevitável dor da partida (se para nós morrer é partir, para Owens viver é partir).
Aos poucos, o menino cresce sob a tutela de seres fantásticos até que terá de esclarecer e encarar sua vida de mortal, decifrando enigmas e construindo sua história. Surgem figuras femininas para acompanhá-lo nesse processo de amadurecimento.
O medo de Owen não é da morte, como todo mortal, porque para ele a morte é aconchego e segurança, o que lhe é familiar e querido. Seu medo é da separação. Mas sob as mãos afetuosas dos mortos e de Silas, seu mentor e guardião, ele terá que desenvolver a coragem de romper com o conhecido, avançar os limites do cemitério num caminho inverso ao que fez quando bebê, e aprender a viver.
Um presente ao leitor são as belas ilustrações que acompanham os capítulos, feitas por Dave McKean.
Acho que o livro é uma linda fábula sobre o amor incondicional, as perdas necessárias e a tolerância com as diferenças, abordando a morte de um ângulo ingênuo e até lúdico, mas muito delicado. Amei.
("O Livro do Cemitério", Neil Gaiman. Editora Rocco, selo Jovens Leitores)
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