Não tirei agosto para falar do meu desgosto com as últimas leituras, não! Mas o pior livro do mês foi "Sangue na Neve", de Jo Nesbo, editora Record.
Talvez por ser fã do escritor norueguês com cara de astro de rock (ele tem mesmo uma banda), minha expectativa era bem alta e fiquei desconcertada com a história tão pouco envolvente do assassino de aluguel Olav. Confesso, o livro estava em promoção e era bem compacto, dava para ler junto com outros - acabo tendo uma pilha ao lado do abajur, daí o nome do blog. Mas, acima de tudo, era um Jo Nesbo!
Escrito em primeira pessoa, "Sangue na Neve" envolve o monólogo do bom e cruel Olav, que por um lado se coloca capaz de coisas heroicas e por outro, das mais sórdidas. Só que o personagem, que seria profundamente humano em suas contradições existenciais, é tão superficial que não convence ninguém de nada. Aliás, senti raiva dele por vários momentos, até mesmo nos que Nesbo tenta trabalhar com o passado triste que evocaria lágrimas do leitor, ou ao menos sua compaixão. Comigo não colou.
Pela sinopse, Olav é contratado para matar a esposa adúltera de um traficante de drogas, mas cai de quatro por ela, que nada tem a ver com outra moça, bem menos glamourosa, que o protagonista acaba salvando da prostituição. Entre honrar sua palavra e manter a pele, acompanhamos um Olav fraco e insosso, que se envolve em algumas brigas para caminhar, abatido, para o final comum.
O livro difere dos que eu li não só em peso como em envolvimento. Nos outros, Nesbo se apresentou com um incrível talento para prender a leitura, cruzando informações com maestria. Neste, Nesbo pareceu escrever sob encomenda ou teimar em criar algo muito diferente de seu estilo afiado, mas o molho desandou, passou do ponto. (E pensar que o livro, que na propaganda lidera lista de best sellers, já tem direitos vendidos para virar filme...)
Quem sabe eu quisesse reviver o sabor do investigador Harry Hole em "Boneco de Neve", que tanto me prendeu do começo ao fim. Olav está a anos-luz de Hole, perdido em suas indefinições. Possível querer a empolgação de "A Estrela do Diabo", tão profundo, ou "O Redentor", com suas minúcias. Só sei que foi triste descobrir que até Jo Nesbo derrapa de vez em quando.
Abro as portas dessa biblioteca infinita que é o saber. Nesta viagem, ofereço-lhe apenas meu olhar e meus sentimentos, como leitora apaixonada, em resenhas sobre um sem fim de livros. De policiais a infantis, de biografias a poesias, de receitas culinárias a obras de psicologia, quase tudo me interessa e espero compartilhar com você. Boa leitura!
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
"Caixa de Pássaros": melhor fechada
"Caixa de Pássaros", romance de estreia de Josh Malerman, foi vendido como um thriller amedrontador, daqueles de deixar os fãs de terror insones por muitas noites. Por isso comprei. Mas, em que pese a excelente diagramação e o texto fluído, com capítulos curtos, tão fáceis de ler, o livro não me conquistou.
Meu interesse também partiu de a heroína ser mulher e mãe (quantas são, por favor, mulheres bravas que decidem fugir com as crias a tiracolo num cenário cheio de perigos em romances de terror?). Claro que, como mãe, me identifiquei com a proposta, que no final das contas me decepcionou bastante.
Para começar, a história nada tem de nova: num mundo pós-apocalíptico, alguns poucos tentam sobreviver a tragédias provocadas por enigmáticas criaturas vendando os olhos, já que quem as vê enlouquece e comete suicídio.
Neste ambiente vazio e hostil temos a presença da protagonista Malorie que, grávida, é acolhida por um grupo cuja harmonia se desestabiliza com a presença de um novo integrante. Anos depois, a moça e os filhos, um casal de crianças treinadas para viver no escuro, buscam fugir do mal numa canoa para algum tipo de paraíso.
Depois de um ritmo lento, em tempos alternados, quase corremos loucamente nas últimas páginas num esforço sobre-humano do autor em tornar a narrativa mais interessante para novamente desacelerar no final tão previsível.
Neste ambiente vazio e hostil temos a presença da protagonista Malorie que, grávida, é acolhida por um grupo cuja harmonia se desestabiliza com a presença de um novo integrante. Anos depois, a moça e os filhos, um casal de crianças treinadas para viver no escuro, buscam fugir do mal numa canoa para algum tipo de paraíso.
Depois de um ritmo lento, em tempos alternados, quase corremos loucamente nas últimas páginas num esforço sobre-humano do autor em tornar a narrativa mais interessante para novamente desacelerar no final tão previsível.
Além de cenas inverossímeis (mesmo em fantasia, a falta de lógica desrespeita a inteligência do leitor), o enredo parece truncado, batido, sem graça. Nem nos momentos mais altos da leitura consegui sentir frio na barriga; o que tive foram bons bocejos.
Não acho que seja um livro desprezível, mas digo que esteja na triste média daquelas obras escritas para vender. Sem paixão, sem surpresas. Uma pena. Aos amantes do medo, um conselho: nem abram essa caixa.
Como disse, boa mesma só a diagramação (da "Ô de Casa").
"Caixa de Pássaros" foi lançado no Brasil em 2015 pela editora Intrínseca.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
"Acabadora"
Um livro simples, mas de uma poesia e uma leveza mais que apropriadas para abordar a finitude e o sofrimento sob um ângulo novo. Assim é "Acabadora", de Michela Murgia, lançado no Brasil pelo selo Alfaguara.
Um vilarejo, uma figura misteriosa, uma tradição.
Na figura de Maria, quarta filha de uma pobre viúva, adotada pela enigmática Bonaria Urrai, entramos na relação simbiótica das duas mulheres. O fio que as une é a costura, porém há algo maior, uma missão, que Maria intui ao desvendar segredos da mãe adotiva enquanto se vê às voltas com seus próprios questionamentos.
Ao longo da narrativa, que ocupa 152 páginas, acompanhamos a evolução da menina a mulher, ao mesmo tempo em que Bonaria vai sendo consumida pelo tempo. A mudança de Maria do vilarejo, seu primeiro amor, o retorno, toda sua trajetória funde-se ao passado da idosa.
Longe de ser uma leitura intensa e vibrante, "Acabadora" é um romance delicado, tranquilo, mas com um ritmo envolvente. Fala de feminino, amor, das subjetividades da vida e da morte, de escolhas e destinos. Acho que "filhos d´alma" foi a expressão que mais gostei, logo na primeira linha.
Um belo trabalho, o primeiro de autora italiana no Brasil.
Um vilarejo, uma figura misteriosa, uma tradição.
Na figura de Maria, quarta filha de uma pobre viúva, adotada pela enigmática Bonaria Urrai, entramos na relação simbiótica das duas mulheres. O fio que as une é a costura, porém há algo maior, uma missão, que Maria intui ao desvendar segredos da mãe adotiva enquanto se vê às voltas com seus próprios questionamentos.
Ao longo da narrativa, que ocupa 152 páginas, acompanhamos a evolução da menina a mulher, ao mesmo tempo em que Bonaria vai sendo consumida pelo tempo. A mudança de Maria do vilarejo, seu primeiro amor, o retorno, toda sua trajetória funde-se ao passado da idosa.
Longe de ser uma leitura intensa e vibrante, "Acabadora" é um romance delicado, tranquilo, mas com um ritmo envolvente. Fala de feminino, amor, das subjetividades da vida e da morte, de escolhas e destinos. Acho que "filhos d´alma" foi a expressão que mais gostei, logo na primeira linha.
Um belo trabalho, o primeiro de autora italiana no Brasil.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
Prisioneiros do Inverno
Faz frio aqui, acho que uns 16 graus que, para o litoral, é gélido. Com uma caneca de chá ao lado, devorei o livro "Prisioneiros do Inverno" em dois dias, cuja capa é uma paisagem de neve escondendo um casarão sinistro. A obra, da autora Jennifer McMahon, publicada no Brasil pela Record, gira em torno de um mistério na pequena cidade de West Hall e o diário da sua principal personagem, Sara Harrison Shea, encontrada morta (de maneira atroz) em 1908 em sua propriedade, onde paira uma assustadora lenda. O principal suspeito é o marido, Martin. Após sofrer a prematura morte da única filha, ainda criança, o casal se distancia e não consegue manter a normalidade da pacata vida rural onde vivem desde que nasceram. A situação se amplia a ponto de nenhum dos dois se reconhecer, a loucura espreitando seus destinos trágicos.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Médico aborda comunicação no tratamento oncológico
Apresentado como um guia, o livro "A comunicação médico-paciente no tratamento oncológico", escrito pelo oncologista Ricardo Caponero, é uma preciosa ferramenta para todos aqueles que se veem envolvidos com o câncer, útil não apenas a médicos como também a familiares, demais profissionais de saúde e pacientes. A publicação é da MG Editores. Bastante simples na apresentação, a obra contém mais que o essencial para tentar facilitar e favorecer o diálogo tão importante tanto no processo de enfrentamento da doença quanto na aceitação de situações irreversíveis.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
domingo, 27 de setembro de 2015
"O Guardião Invisível" abre trilogia de Dolores Redondo
Os elogios da capa, atribuídos a El País, não traduzem minha impressão sobre "O Guardião Invisível", primeiro romance da trilogia sobre o trabalho da investigadora Amaia Salazar no vale do rio Baztán. Chego à página 360 com o incômodo de uma obra potencialmente boa que vai se confundindo a ponto de chegar ao vazio dos lugares-comuns. Não gostei do livro, apesar da leitura agradável pela escrita equilibrada. Poderia ter apreciado muito mais. Certamente não será daqueles livros que parecem eternos em minha memória.
Criada pela escritora Dolores Redondo, Amaia fascina como a mistura de policial destemida e mulher frágil, pelos momentos de paixão ao seu fiel marido, pelos erros e acertos que fazem dela uma pobre mortal e, ao mesmo tempo, a heroína que persegue a justiça. Porém, em "O Guardião Invisível", o primeiro que li da escritora que se dedica à gastronomia, notei que o enredo vai tomando formas tão díspares que se perde numa trama que tinha tudo para ser ótima, mas decepciona nos minutos finais, como aquele corredor que inicia na frente de todos e perde o impulso perto da chegada.
A história gira em torno da investigação, por Amaia e sua equipe masculina de inspetores, de crimes cometidos a adolescentes. O criminoso, que tudo leva a crer ser um serial killer, tem uma assinatura especial: um doce típico que deposita no ventre de suas vítimas. O crime faz ela voltar à sua cidade de origem, o pequeno povoado de Elizondo, e se confrontar com um passado traumático que a persegue desde a infância. No decorrer das páginas, ora acompanhamos a ação da investigadora, diretamente ligada às relações familiares e às crenças folclóricas locais, ora espreitamos Amaia ainda menina na doceria (!) que pertenceu a seus pais.
No povoado, com seu marido à tiracolo, a policial retoma suas origens na atualidade e é assolada por terríveis pesadelos que precisa esclarecer. Inicialmente cética em relação ao que não pode explicar, vai sucumbindo às crenças populares até abraçar seu lado místico. Outro aspecto obscuro que precisa lidar é a razão que a impede de engravidar, situação compartilhada pelas irmãs.
O livro é um romance policial, mas também ficção fantástica, onde a realidade não é relatada em fatos consistentes que nos convencem, mas flerta com seres lendários e o poder dos oráculos. Como disse, tem todos os ingredientes para uma receita de sucesso, mas o bolo infelizmente não cresceu. As únicas partes do livro que me fizeram pensar foram as que abordaram o quanto uma criança pode ser marcada por acontecimentos que fogem a seu controle, como um transtorno mental, por exemplo, sem contar com a proteção de adultos que deveriam estar a seu lado, mas preferiram se esquivar em nome da segurança das convenções sociais.
Criada pela escritora Dolores Redondo, Amaia fascina como a mistura de policial destemida e mulher frágil, pelos momentos de paixão ao seu fiel marido, pelos erros e acertos que fazem dela uma pobre mortal e, ao mesmo tempo, a heroína que persegue a justiça. Porém, em "O Guardião Invisível", o primeiro que li da escritora que se dedica à gastronomia, notei que o enredo vai tomando formas tão díspares que se perde numa trama que tinha tudo para ser ótima, mas decepciona nos minutos finais, como aquele corredor que inicia na frente de todos e perde o impulso perto da chegada.
A história gira em torno da investigação, por Amaia e sua equipe masculina de inspetores, de crimes cometidos a adolescentes. O criminoso, que tudo leva a crer ser um serial killer, tem uma assinatura especial: um doce típico que deposita no ventre de suas vítimas. O crime faz ela voltar à sua cidade de origem, o pequeno povoado de Elizondo, e se confrontar com um passado traumático que a persegue desde a infância. No decorrer das páginas, ora acompanhamos a ação da investigadora, diretamente ligada às relações familiares e às crenças folclóricas locais, ora espreitamos Amaia ainda menina na doceria (!) que pertenceu a seus pais.
No povoado, com seu marido à tiracolo, a policial retoma suas origens na atualidade e é assolada por terríveis pesadelos que precisa esclarecer. Inicialmente cética em relação ao que não pode explicar, vai sucumbindo às crenças populares até abraçar seu lado místico. Outro aspecto obscuro que precisa lidar é a razão que a impede de engravidar, situação compartilhada pelas irmãs.
O livro é um romance policial, mas também ficção fantástica, onde a realidade não é relatada em fatos consistentes que nos convencem, mas flerta com seres lendários e o poder dos oráculos. Como disse, tem todos os ingredientes para uma receita de sucesso, mas o bolo infelizmente não cresceu. As únicas partes do livro que me fizeram pensar foram as que abordaram o quanto uma criança pode ser marcada por acontecimentos que fogem a seu controle, como um transtorno mental, por exemplo, sem contar com a proteção de adultos que deveriam estar a seu lado, mas preferiram se esquivar em nome da segurança das convenções sociais.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
"A Jornada de Felicia" - Trevor fora dos contos
Minha incursão pela obra do escritor William Trevor não foi pelos contos que o fizeram famoso, mas por um romance, "A Jornada de Felicia", publicado pelo selo Biblioteca Azul.
Trevor, que nasceu e passou quase toda vida em pequenas cidades da Irlanda, é também autor de "A história de Lucy Gault", que está na minha lista de desejos.
Antes de ler, costumo flertar com o livro em mãos logo após abrir a embalagem, já que quase todos adquiro por lojas virtuais, escolhendo pelas sinopses e títulos. Acho que a cor das páginas, a fonte das letras e a capa são importantes elementos nessa íntima relação entre autor e leitor. Neste caso, trabalho bem-feito da editora, com papel de qualidade, cores em harmonia, bela edição e uma capa que expressa bem o tom de mistério da história.
Felicia, a personagem principal, deixa sua família numerosa na Irlanda e parte sozinha para Inglaterra, em busca do namorado que a engravidou. O rapaz disse-lhe apenas que trabalhava numa fábrica e assim, sem endereço nem informações consistentes, a garota de apenas dezessete anos se aventura nesta jornada que a faz diferente, que a transforma lentamente, quase sem que ela própria pudesse perceber. A viagem, entretanto, não tem a alegria de uma aventura, mas a premência de uma necessidade até incômoda.
Acompanhamos, nesta leitura ágil, a ingenuidade da garota, sua quase indestrutível esperança e a firmeza de seu caráter no processo de ruptura que marca a entrada para a vida adulta, ao mesmo tempo que a vemos cair em ciladas próprias da inexperiência, emergindo mais madura de seus erros para reconstruir uma realidade sonhada com aquilo que se apresenta no real. Um parênteses: impossível não se identificar com a adolescente Felicia quando olhamos para trás e percebemos nós mesmos, hoje sensatos adultos, no tempo em que tudo era possível. Chega a dar uma certa dor, o pesar pelas ilusões perdidas.
Simultaneamente conhecemos mr. Hilditch, um homem comum e estranho que surge na vida de Felicia e se oferece para ajudá-la a encontrar o namorado. Suas buscas se cruzam e nesse encontro vamos entrando numa trama envolvente, no ritmo crescente de um bom livro de suspense. Trevor nos coloca a par da vida provinciana de um pequeno povoado, desnudando um perfil que nada tem de pacato, em conflito com a solidão que marca os relacionamentos em cidades maiores. E na banalidade de ignoradas existências desnuda o que há de melhor e pior no ser humano.
Gostei muito da experiência, certamente vou comprar outro romance de Trevor. Seu texto é objetivo, conciso e ligeiro, qualidades que aprecio. O final é coerente, embora não seja o ideal. Mas desejo muito descobrir seu lado contista, aguardando, ansiosa, a aquisição de seus Contos Completos.
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