Descobri Coetzee com atraso, por uma indicação feita pela jornalista e escritora Sônia Hirsch em entrevista ao programa Provocações. Sônia é uma estudiosa sobre alimentação, tenho vários livros dela na estante, e de uma simpatia incrível. Vivo de indicações, sinais, citações, tudo que possa me guiar até um bom escritor, por isso a agradeço. E assim, caminhando sobre a obra deste senhor, cheguei a "Diário de um Ano Ruim", publicado pela Companhia das Letras. Um livro bem diferente, que mexeu com meu poder de concentração como nenhum outro.
Imagine um livro tridimensional, três narrativas que seguem ao mesmo tempo. Temos a história de um famoso escritor, idoso, que se encanta e contrata uma garota casada, Anya, que mora em seu prédio, para digitar seus artigos para um livro polêmico. O marido da moça, que vive num universo completamente diferente do mundo fechado do escritor, tenta levar vantagem nessa relação e coloca a esposa numa situação difícil, em que ela se confrontará com seus próprios limites éticos. Forma-se uma espécie de triângulo amoroso sem ser, um triângulo escaleno, na minha opinião. Personagens ligados, pensamentos revelados, verdades combatidas, e no decorrer das páginas vamos conhecendo melhor a biografia do escritor, sul-africano (como Coetzee) e radicado na Austrália, o marido australiano que cresceu num orfanato e a própria Anya, de origem filipina, compondo assim nosso próprio desenho da trama.
Cada capítulo abre com o título de um artigo e logo abaixo, em notas de rodapé, acompanhamos a evolução de reflexões e sentimentos do escritor e da digitadora, que sente a opressão e a libertação do convívio com os dois homens, questionando-se sobre sua identidade, seus desejos, suas opiniões acerca do que eles próprios defendem.
Gostei muito porque o senti o livro como um chamado sobre a mulher e, sobretudo, sua libertação. Não espere adrenalina, paixão, tragédia, fortes emoções, portanto é uma leitura tranquila, embora inquieta. Trata do ser humano enquanto sociedade e, curiosamente, como o animal que é, um animal sofisticado, racional, porém ainda movido por instintos primitivos.
Comecei a ler outro livro de Coetzee, "Elizabeth Costello", que espero seja tão interessante quanto, também publicado pela Companhia das Letras.
Vale lembrar que J. M. Coetzee recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2003.
Abro as portas dessa biblioteca infinita que é o saber. Nesta viagem, ofereço-lhe apenas meu olhar e meus sentimentos, como leitora apaixonada, em resenhas sobre um sem fim de livros. De policiais a infantis, de biografias a poesias, de receitas culinárias a obras de psicologia, quase tudo me interessa e espero compartilhar com você. Boa leitura!
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
sábado, 4 de fevereiro de 2017
O Imperador de todos os males
Pode-se pensar no câncer como um monstro invencível, humanizá-lo na condição de um inimigo a ser vencido e tratá-lo como o pior dos pesadelos, um sinistro espectro que nos sonda como uma harpia, escolhendo suas vítimas do alto. No passado era tão temido que nem se podia pronunciar seu nome - lembro da minha avó se referindo a "àquela doença" ao falar da causa morte de alguém - como se o simples substantivo comum fosse impregnado do poder mágico de atrair tão nefasta má sorte. A Medicina avançou muito nos últimos cem anos, mas o câncer (sinônimo de morte, e morte lenta e sofrida) continua sendo visto como uma entidade única, poderosa e temida, não como o que é: o crescimento descontrolado de células.
Quando a Companhia das Letras lançou "O Imperador de Todos os Males - uma biografia do Câncer" (em 2012), concebido por um médico indiano cuja difícil pronúncia complica sua memorização, Siddhartha Mukherjee (e preciso ler e reler várias vezes para me certificar se escrevi certo), logo me interessei em comprar. A princípio, pode-se pensar que não é uma literatura para muitos - suas 648 páginas impõem respeito - mas o texto flui levemente, mesclando história da Medicina, casos clínicos, o drama das equipes de saúde diante do fracasso de tratamentos, os bastidores dos maiores trabalhos na área, conquistas e curiosidades. Dos primórdios, no Antigo Egito, até os dias atuais, o autor expõe detalhes interessantíssimos de como a comunidade científica busca sua cura e como vem sendo frustrante para os médicos conviver com os limites da ciência diante deste enorme desafio.
Num daqueles casos singulares, Mukherjee é médico-pesquisador com muito talento na escrita de modo a tornar o que seria uma leitura maçante e restrita a especialistas uma obra fácil de ler e de entender. Admiro a capacidade literária de alguns médicos, como o nosso Drauzio Varella, que conseguem traduzir temas complexos e herméticos, mas tão fundamentais de serem compreendidos por pessoas comuns, pacientes ou não, com a necessária simplicidade. É um médico jovem, porém experiente, nascido em Nova Delhi em 1970, formado em Harvard, especialista em Oncologia, tendo conhecimentos em Biologia e Imunologia.
O livro me prendeu por uma semana, talvez porque gosto de ler sobre medicina. Recomendo àqueles que desejam saber mais sobre a trajetória do câncer até a atualidade. Entretanto, concluí a obra com uma ligeira frustração, já que o nome me fez imaginar algo maior, mais completo e até futurista, à altura do Mito. Claro que meu desejo era ler que estamos muito perto da cura, tão perto como de uma maçã no galho acima de nossas cabeças, porém ainda se caminha em descompasso com a crescente demanda, acompanhando suas poucas pistas. Expectativas altas demais, portanto. Mesmo assim, é um livro especial.
Seu novo livro, "O Gene", também pela Companhia das Letras, está na minha lista de desejos. Trata de outro tema, a hereditariedade, mas se for tão interessante quanto o "Imperador" valerá cada segundo.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Jo Nesbo, que decepção
Não tirei agosto para falar do meu desgosto com as últimas leituras, não! Mas o pior livro do mês foi "Sangue na Neve", de Jo Nesbo, editora Record.
Talvez por ser fã do escritor norueguês com cara de astro de rock (ele tem mesmo uma banda), minha expectativa era bem alta e fiquei desconcertada com a história tão pouco envolvente do assassino de aluguel Olav. Confesso, o livro estava em promoção e era bem compacto, dava para ler junto com outros - acabo tendo uma pilha ao lado do abajur, daí o nome do blog. Mas, acima de tudo, era um Jo Nesbo!
Escrito em primeira pessoa, "Sangue na Neve" envolve o monólogo do bom e cruel Olav, que por um lado se coloca capaz de coisas heroicas e por outro, das mais sórdidas. Só que o personagem, que seria profundamente humano em suas contradições existenciais, é tão superficial que não convence ninguém de nada. Aliás, senti raiva dele por vários momentos, até mesmo nos que Nesbo tenta trabalhar com o passado triste que evocaria lágrimas do leitor, ou ao menos sua compaixão. Comigo não colou.
Pela sinopse, Olav é contratado para matar a esposa adúltera de um traficante de drogas, mas cai de quatro por ela, que nada tem a ver com outra moça, bem menos glamourosa, que o protagonista acaba salvando da prostituição. Entre honrar sua palavra e manter a pele, acompanhamos um Olav fraco e insosso, que se envolve em algumas brigas para caminhar, abatido, para o final comum.
O livro difere dos que eu li não só em peso como em envolvimento. Nos outros, Nesbo se apresentou com um incrível talento para prender a leitura, cruzando informações com maestria. Neste, Nesbo pareceu escrever sob encomenda ou teimar em criar algo muito diferente de seu estilo afiado, mas o molho desandou, passou do ponto. (E pensar que o livro, que na propaganda lidera lista de best sellers, já tem direitos vendidos para virar filme...)
Quem sabe eu quisesse reviver o sabor do investigador Harry Hole em "Boneco de Neve", que tanto me prendeu do começo ao fim. Olav está a anos-luz de Hole, perdido em suas indefinições. Possível querer a empolgação de "A Estrela do Diabo", tão profundo, ou "O Redentor", com suas minúcias. Só sei que foi triste descobrir que até Jo Nesbo derrapa de vez em quando.
Talvez por ser fã do escritor norueguês com cara de astro de rock (ele tem mesmo uma banda), minha expectativa era bem alta e fiquei desconcertada com a história tão pouco envolvente do assassino de aluguel Olav. Confesso, o livro estava em promoção e era bem compacto, dava para ler junto com outros - acabo tendo uma pilha ao lado do abajur, daí o nome do blog. Mas, acima de tudo, era um Jo Nesbo!
Escrito em primeira pessoa, "Sangue na Neve" envolve o monólogo do bom e cruel Olav, que por um lado se coloca capaz de coisas heroicas e por outro, das mais sórdidas. Só que o personagem, que seria profundamente humano em suas contradições existenciais, é tão superficial que não convence ninguém de nada. Aliás, senti raiva dele por vários momentos, até mesmo nos que Nesbo tenta trabalhar com o passado triste que evocaria lágrimas do leitor, ou ao menos sua compaixão. Comigo não colou.
Pela sinopse, Olav é contratado para matar a esposa adúltera de um traficante de drogas, mas cai de quatro por ela, que nada tem a ver com outra moça, bem menos glamourosa, que o protagonista acaba salvando da prostituição. Entre honrar sua palavra e manter a pele, acompanhamos um Olav fraco e insosso, que se envolve em algumas brigas para caminhar, abatido, para o final comum.
O livro difere dos que eu li não só em peso como em envolvimento. Nos outros, Nesbo se apresentou com um incrível talento para prender a leitura, cruzando informações com maestria. Neste, Nesbo pareceu escrever sob encomenda ou teimar em criar algo muito diferente de seu estilo afiado, mas o molho desandou, passou do ponto. (E pensar que o livro, que na propaganda lidera lista de best sellers, já tem direitos vendidos para virar filme...)
Quem sabe eu quisesse reviver o sabor do investigador Harry Hole em "Boneco de Neve", que tanto me prendeu do começo ao fim. Olav está a anos-luz de Hole, perdido em suas indefinições. Possível querer a empolgação de "A Estrela do Diabo", tão profundo, ou "O Redentor", com suas minúcias. Só sei que foi triste descobrir que até Jo Nesbo derrapa de vez em quando.
"Caixa de Pássaros": melhor fechada
"Caixa de Pássaros", romance de estreia de Josh Malerman, foi vendido como um thriller amedrontador, daqueles de deixar os fãs de terror insones por muitas noites. Por isso comprei. Mas, em que pese a excelente diagramação e o texto fluído, com capítulos curtos, tão fáceis de ler, o livro não me conquistou.
Meu interesse também partiu de a heroína ser mulher e mãe (quantas são, por favor, mulheres bravas que decidem fugir com as crias a tiracolo num cenário cheio de perigos em romances de terror?). Claro que, como mãe, me identifiquei com a proposta, que no final das contas me decepcionou bastante.
Para começar, a história nada tem de nova: num mundo pós-apocalíptico, alguns poucos tentam sobreviver a tragédias provocadas por enigmáticas criaturas vendando os olhos, já que quem as vê enlouquece e comete suicídio.
Neste ambiente vazio e hostil temos a presença da protagonista Malorie que, grávida, é acolhida por um grupo cuja harmonia se desestabiliza com a presença de um novo integrante. Anos depois, a moça e os filhos, um casal de crianças treinadas para viver no escuro, buscam fugir do mal numa canoa para algum tipo de paraíso.
Depois de um ritmo lento, em tempos alternados, quase corremos loucamente nas últimas páginas num esforço sobre-humano do autor em tornar a narrativa mais interessante para novamente desacelerar no final tão previsível.
Neste ambiente vazio e hostil temos a presença da protagonista Malorie que, grávida, é acolhida por um grupo cuja harmonia se desestabiliza com a presença de um novo integrante. Anos depois, a moça e os filhos, um casal de crianças treinadas para viver no escuro, buscam fugir do mal numa canoa para algum tipo de paraíso.
Depois de um ritmo lento, em tempos alternados, quase corremos loucamente nas últimas páginas num esforço sobre-humano do autor em tornar a narrativa mais interessante para novamente desacelerar no final tão previsível.
Além de cenas inverossímeis (mesmo em fantasia, a falta de lógica desrespeita a inteligência do leitor), o enredo parece truncado, batido, sem graça. Nem nos momentos mais altos da leitura consegui sentir frio na barriga; o que tive foram bons bocejos.
Não acho que seja um livro desprezível, mas digo que esteja na triste média daquelas obras escritas para vender. Sem paixão, sem surpresas. Uma pena. Aos amantes do medo, um conselho: nem abram essa caixa.
Como disse, boa mesma só a diagramação (da "Ô de Casa").
"Caixa de Pássaros" foi lançado no Brasil em 2015 pela editora Intrínseca.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
"Acabadora"
Um livro simples, mas de uma poesia e uma leveza mais que apropriadas para abordar a finitude e o sofrimento sob um ângulo novo. Assim é "Acabadora", de Michela Murgia, lançado no Brasil pelo selo Alfaguara.
Um vilarejo, uma figura misteriosa, uma tradição.
Na figura de Maria, quarta filha de uma pobre viúva, adotada pela enigmática Bonaria Urrai, entramos na relação simbiótica das duas mulheres. O fio que as une é a costura, porém há algo maior, uma missão, que Maria intui ao desvendar segredos da mãe adotiva enquanto se vê às voltas com seus próprios questionamentos.
Ao longo da narrativa, que ocupa 152 páginas, acompanhamos a evolução da menina a mulher, ao mesmo tempo em que Bonaria vai sendo consumida pelo tempo. A mudança de Maria do vilarejo, seu primeiro amor, o retorno, toda sua trajetória funde-se ao passado da idosa.
Longe de ser uma leitura intensa e vibrante, "Acabadora" é um romance delicado, tranquilo, mas com um ritmo envolvente. Fala de feminino, amor, das subjetividades da vida e da morte, de escolhas e destinos. Acho que "filhos d´alma" foi a expressão que mais gostei, logo na primeira linha.
Um belo trabalho, o primeiro de autora italiana no Brasil.
Um vilarejo, uma figura misteriosa, uma tradição.
Na figura de Maria, quarta filha de uma pobre viúva, adotada pela enigmática Bonaria Urrai, entramos na relação simbiótica das duas mulheres. O fio que as une é a costura, porém há algo maior, uma missão, que Maria intui ao desvendar segredos da mãe adotiva enquanto se vê às voltas com seus próprios questionamentos.
Ao longo da narrativa, que ocupa 152 páginas, acompanhamos a evolução da menina a mulher, ao mesmo tempo em que Bonaria vai sendo consumida pelo tempo. A mudança de Maria do vilarejo, seu primeiro amor, o retorno, toda sua trajetória funde-se ao passado da idosa.
Longe de ser uma leitura intensa e vibrante, "Acabadora" é um romance delicado, tranquilo, mas com um ritmo envolvente. Fala de feminino, amor, das subjetividades da vida e da morte, de escolhas e destinos. Acho que "filhos d´alma" foi a expressão que mais gostei, logo na primeira linha.
Um belo trabalho, o primeiro de autora italiana no Brasil.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
Prisioneiros do Inverno
Faz frio aqui, acho que uns 16 graus que, para o litoral, é gélido. Com uma caneca de chá ao lado, devorei o livro "Prisioneiros do Inverno" em dois dias, cuja capa é uma paisagem de neve escondendo um casarão sinistro. A obra, da autora Jennifer McMahon, publicada no Brasil pela Record, gira em torno de um mistério na pequena cidade de West Hall e o diário da sua principal personagem, Sara Harrison Shea, encontrada morta (de maneira atroz) em 1908 em sua propriedade, onde paira uma assustadora lenda. O principal suspeito é o marido, Martin. Após sofrer a prematura morte da única filha, ainda criança, o casal se distancia e não consegue manter a normalidade da pacata vida rural onde vivem desde que nasceram. A situação se amplia a ponto de nenhum dos dois se reconhecer, a loucura espreitando seus destinos trágicos.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.
O livro é considerado de terror por abordar como se faz para que um morto, que eles chamam dormente, volte a viver. Mas pouco da trama é chocante a ponto de apavorar o leitor, na verdade a ansiedade em chegar ao desfecho é crescente porque o terror acontece gradualmente e num ritmo ágil que me encantou. Além do drama da mãe que perde a filha, conhecemos seu passado familiar, uma história pontuada pela dor de perdas e desencontros.
Paralelamente, conhecemos a história de Ruthie, uma garota cuja mãe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. A ajuda vem do namorado a princípio e segue com o apoio da única irmã, uma menininha, que acaba invertendo os papeis. Investigando o paradeiro da mãe, tudo que Ruthie conhecia sobre si mesma vira de cabeça para baixo e ela precisa encarar seus maiores medos. Para se juntar à aflição das garotas surge Katherine, também abalada pela morte do marido fotógrafo e do filho pequeno. Mudando-se para a pequena cidade, a moça busca respostas às perguntas que restaram da última noite do marido antes de um acidente fatal e uma pista, o registro da conta paga num café numa cidade da qual nunca tinha ouvido falar, sugerindo um encontro dele com mais alguém, a cidade que ela escolhe para viver seu luto.
Cada capítulo se alterna entre o diário de Sara, as impressões de Martin, a busca de Ruthie e a saga de Katherine rumo ao desconhecido. Fala muito de amor, de apego, de como as pessoas lidam com a morte e como refazer a vida após tragédias imensas das quais sobreviver é mais que uma opção.
Recomendo a leitura. São 348 páginas de eletricidade gostosa, alguns clichês e uma ou outra falha, mas que não compromete o enredo. Gostei tanto da narrativa de McMahon que já me preparo para conhecer outras obras dela, que mora em Vermont com a família e se dedica a escrever livros de suspense. Ah, e leia no inverno.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Médico aborda comunicação no tratamento oncológico
Apresentado como um guia, o livro "A comunicação médico-paciente no tratamento oncológico", escrito pelo oncologista Ricardo Caponero, é uma preciosa ferramenta para todos aqueles que se veem envolvidos com o câncer, útil não apenas a médicos como também a familiares, demais profissionais de saúde e pacientes. A publicação é da MG Editores. Bastante simples na apresentação, a obra contém mais que o essencial para tentar facilitar e favorecer o diálogo tão importante tanto no processo de enfrentamento da doença quanto na aceitação de situações irreversíveis.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
A morte, o grande tabu humano, é revestida de preconceitos, mitos e desencontros que também são comuns diante do diagnóstico do câncer, seja ele de que tipo. A própria palavra assusta, levando alguns a evitá-la, referindo-se a "aquela doença" ou algo assim, como se o próprio pronunciar fosse atrair tamanho mal. Muito dessa aura fantasiosa é produzida pela barreira do silêncio.
A tentativa de Caponero é apresentar caminhos para romper com o que ele chama de "conspiração do silêncio", contexto em que não se fala ou fala-se pouco sobre a situação real que transforma a vida daquela pessoa e de seus familiares, alterando suas rotinas nos períodos de internações e exigindo recursos emocionais para essa difícil adaptação. Adotar uma comunicação clara e objetiva se impõe como necessidade durante o tratamento, desde a primeira consulta. Também apresenta benefícios, aliviando angústia, promovendo conforto, favorecendo o processo de cura ou, quando ela não é possível, a morte digna.
Como jornalista, e até por ter exercido o cargo de coordenadora de comunicação de um hospital por cinco anos, achei muito interessante o livro. Entendo que grande parte dos problemas em saúde é gerada por falhas na comunicação e ausência de um diálogo honesto, sensível e objetivo. Muitas vezes tudo o que o paciente precisa é ser ouvido, ainda mais quando se luta contra uma doença tão complexa como o câncer - uma conversa pode ser terapêutica. Os familiares, exaustos e confusos, precisam de dados e orientações que os ajudem a apoiar o paciente. Por isso recomendo a leitura aos médicos em geral, mesmo aqueles que não atuam nesta especialidade, que certamente se sentirão mais seguros na forma de conduzir a comunicação, especialmente a de notícias difíceis, com seus pacientes e familiares.
Caponero é graduado pela Faculdade de Medicina pela USP e especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outros títulos. Apesar de seu currículo, sua escrita é fluente, acessível a todos os públicos e agradável de ler. Mais que isso, reflete um modo humanizado e holístico de se praticar a medicina, em que o paciente não se reduz a um quadro clínico ou um prontuário, mas é visto como um ser humano em suas múltiplas diversidades, e o médico deixa de ser uma espécie de mito para se apresentar como pessoa. Trata-se de uma bela contribuição à área da saúde.
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